<$BlogRSDUrl$>

28.11.03



Aqui está o amigo menos antigo, mas não menos profundo (foi mal, mas o HTML não me responde corretamente, seus espaços e construções de palavras se perderam [alguém sabe como dar espaços grandes entre as linhas?]):

Meu poemama África

Quero meu xirê
com prato
com rosbife de filet mignon.

Quero meu peji
com pedra
vermelha pra comprar vison.

Das equedes eu quero mais
Se demais não for
Voltar para terra sagrada
com manta talhada
pra me proteger da dor

E então apontar pro céu, cabocla,
cuspir fogos.

Estou possuído.

Saravá de Souza dos Santos


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(post)

o bloco
pronto para
o transe

planta
a ponta negra
iniciando
canetraços
brancos

o blóculo
sanguíneo
correntinta
fábula contínua
cria um vácuo
ínfimo
de vasto univário
virando
imagem míntima
e veia

(a via nervosa
da imagem
seria a cidade
vizinha
mais interna)

o subsolo
do bloco
pronto para
o transe:

a substância
zero
do poema
PFC

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# posted by Paulo @ 8:11 PM


Este é um pagodão...

(do querer)

razul
belíndromo extremicata
do razer

entrequentes cochamas
para teu rócio
musculário

Aceitioma como dejerto
paralábio:
oásis
PFC


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# posted by Paulo @ 8:00 PM

22.11.03




MITORGÂNULA

I.
Fedro
Entre a nuvem
E a linha ocre
Alaranjada

Obversou
Dissobre estas cascas
Historicastas marcas
Aforentradas

Verbo
Antissomente obvianti
Tédio

Som
Obviamente criatura
Dentro
12/01
PFC

(Parte do post-processo
onde coloco algumas coisas antigas
de quando começo a brincar a vera)



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# posted by Paulo @ 4:22 AM



EU NÃO SOU O. G.

via
valafunda
afrovia
profunda
via cicacítrica
crucivia crua
subluna teus desvios

erovia órbita
afluente viatoque
gravita celestinos lábios
e grafias

luzvia partes
oticalhos viamentados
linhavia negritando
críptica
o que viaflui rompante

via
viavia
valida
avos ávidos
no teu soprovia

vi viavi
avia

óticorizonte da
veiavia
vem
desvia
01/02

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# posted by Paulo @ 4:15 AM

21.11.03



quero teus dentes
porque minha dor
é tua portaria
teus violentos dentes
me dilacerando
e me contando
milpedaços
que eu não me contenho
de contar
deliciado
assim que a dor
me lança teu espaço
que me ocupa como o tempo
de um compasso

eu sou a dor
doador
do que eu tenho
sou domador
deste fator
que nos atém ao tempo

quero teus dentes bem perto
do cerco da submissão
cerrado em vão
na vela que leva teu corpo
com o vento
que desvenda a renda
entre nossas mãos
11/03
PFC

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# posted by Paulo @ 9:10 PM

19.11.03

o texto espeta
estados no teclado

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# posted by Paulo @ 9:35 PM

DOBRAR ESQUINAS
de Paulo F. Camacho

O1. Vazio apartamento. Meia penumbra quase revelando. O corredor acende. A sombra dele passa pela casa. Perto da porta ele percebe alguma coisa. Na mesinha de centro uma fita cassete espera.

Play. Rinse de fita. Ruído. Uma gravação de rádio, obviamente. Um sermão católico com cara de AM.

Ele deita com cigarro aceso. Desiste de sair.

A hora avançada e a fumaça.

O sermão ambiente. Ele escuta. Masturba-se.

02. A janela pra cidade azul. Noturna. Ela espera. Duvida. Chora em silêncio encostada no umbral. Tudo escuro.

03. Aos poucos se consegue ver a sala vazia. Um som, ou quase um som, ou quase... Na mesa de centro um telefone vibrando. O rumor aumenta. No visor: CASA 1. O aparelho se move enquanto vibra. E cai.

04. Ela em frente à televisão. Fora do ar. Fuma. Lacrimejando. Os olhos irritados. Resolve o telefone. Aperta um botão, dois, rapidamente. No ouvido: nada. Ela não sustenta o corpo. Desmorona.

05. Verde. Ele na calçada. Sentado. Puxa do bolso um

maço de cigarro quase vazio. Esvazia.

Não joga fora. Guarda no bolso de trás.

O cigarro concêntrico. Entre os olhos, observado. Tornando-se nítido. Mudando de cor. Vermelho. Olhos para

os carros parados. Ele se coloca à frente deles. Mostra o cigarro. O isqueiro. Acende. Traga profundo.

Observam dos carros. Ele traga.

Termina o cigarro de uma única vez. Não solta fumaça. Truque feito.

Vai até os carros e pede recompensa.

O motorista no carro fechado não consegue abri-lo. Desiste. Nada.

O motorista no carro aberto ignora.

Os carros partem. Ele solta a fumaça toda de uma vez.

06. O banheiro branco. Aceso. Ela no vaso limpa-se e joga o papel no lixo. Observa

no cesto: o papel e um absorvente sujos, uma marca de cigarro, papel de balas...

Ela vai até o espelho sobre a pia. Faz correr a água. Encara-se. Leva a mão até umbigo e escorrega para dentro da calcinha. Desconfortável, recua e vê os dedos sujos de sangue.

Deixa a corrente levar o vermelho ralo abaixo.

Um pensamento no espelho. A mão úmida ainda encontra-se entrepernas. Suspira. Olhos fechados. O corpo encosta na bancada. Suspira. Treme.

A mão entrelaçada com o reflexo.

07. Tudo passa por ele. A calçada é seu lugar escolhido para a noite. Ele não sabe o caminho de casa. Sozinho, um cigarro lhe é oferecido. Acende e devolve. O sem teto senta a seu lado e recusa o fumo que havia entregado. Ele entende.

Ela caminha com certeza absoluta. Perfume leve, tranqüila. Pára na esquina e espera atravessar. Carro nenhum à vista. No fundo ele e o sem teto. Ele se levanta. Hesita e vem. Verde o semáforo: ela rua afora. Ele olha o sem teto. Vai... vai... E ele vai.

O meio da rua e os dois. Ele alcança. O cigarro na boca. Silêncio. Intenção e essência. Ele e ela. O cigarro? Não obrigada.


Ele
Desculpa...


Ela
Não tem mais graça... Eu já te conheço...


Ele
Como é que eu posso falar com você?

Ela dá seu telefone. O aparelho celular. Sorri. E vai.

O sem teto vê tudo. Ele se aproxima e senta. O telefone em mãos. O cigarro na boca. Fuma. O sem teto tateia com a cabeça o ombro dele. Descansa tão calmo e pertence que ele resolve lhe dar cafuné. E mais nada.

Eu não devia ter saído de casa...

Assim termina o conto.

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# posted by Paulo @ 9:10 PM

ÚLTIMO DIA AZUL
de Paulo F. Camacho

1. Sol num dia aberto. Ele e o resto azul. Queimando. Em fotossíntese. Assim ficamos entre o céu e a figura humana: Um homem levemente calvo e não atlético (note-se que provavelmente é domingo e ele toma sol tomando uma cerveja). Dessa calmaria pasma, e da sola interna do pé direito, vem incomodar uma coceira.

Com o dedão do pé esquerdo a comichão é aliviada. Ah! Coçar um pouco mais é realmente prazeroso! Lembra que os poros abertos e suados pedem as unhas roçando neles.

Seus dedos coçam a barriga úmida e o indicador encontra-se umbigo. O dedo sai com suor a gotejar de sua ponta.

Relaxado, sacode o dedo para se livrar do excesso. Uma gota é atirada na tela e nela, como que por um reflexo, forma-se a imagem de uma mulher com um pequeno vestido branco e preto. Ela nos olha com precisão. Pode-se dizer que nos seduz. O vestido quase nos revela a virilha dela, e o seu ventre... e o seu ventre...

2. Sentada em seu banheiro, descomposta, o telefone em uma das mãos (na direita, já que esse tipo de sentimento raramente é canhoto), a calcinha à meia canela, o choro quase maior que dentro dela, o olhar fixo numa dor muito mais que num ponto. Surpresa tenta represar um tudo de enxurrada. À esquerda, no chão, uma caixa rasgaberta de um teste de gravidez caseiro.

A tarja está azul!

3. Sozinha no banheiro (esse lugar que acolhe seus cigarros) ela chora. Chora de arrebentamento e infantilidade... não porque é fraca, muito menos porque é fêmea. Neste momento estas são as únicas palavras que ela pronuncia. Um cadavérico rigor prende o telefone satélite à sua mão. Esta quase imantada ao espelho. Cada lágrima duas vezes chorada.

O cigarro esquecido na beira da pia chega ao filtro.

4. Alguma coisa estranha. Não no terraço, na casa, talvez. Suspende o corpo pelas costas e senta na espreguiçadeira. Ele fica um tanto tonto antes mesmo de em pé. Dá um tempo sobre o joelho e vai até o quarto. Ajuste de cor e contraste e o chão divide a vista entre a porta e o corpo dele a meio caminho. Ele se encolhe e se enrosca por cima da sua barriga. A dor está no espaço vazio.

5. A porta, lançada para dentro, vai de encontro à parede violentamente. Ele entra vestindo uma blusa bege. Toda abotoada. Sua decisão se perde por um instante. Ele olha onde está. Volta e fecha a porta. O pequeno apartamento está vazio. Mecanicamente ele joga as chaves na mesinha de passagem. Estranha o ato. Vai até o banheiro. No espelho ele é cautelosamente observado por um homem com uma câmera. Qual dos dois é o seu reflexo? Qual dos dois é o seu olhar?

Ele está em frente ao espelho, pasmado. Não está certo que observa, nem que é observado. Ele levanta a mão até a lente. Não a toca. A situação é louca. Ele encara a lente até que se enfada e se aborrece e agarra indignado a visão do espelho.

6. Ela está grávida e chora. Transborda agora que está no colo daquela que fuma um cigarro longe de seu banheiro, logo acima da nuca da mulher que ama e que não se importa com seu vício. O filho é um acidente. A dor está no espaço entre elas.

7. Ela está grávida e dorme. Velada por aquela que já não leva o cigarro à boca por preguiça. Pura falta de vontade. O filho é um vício, não importa de que ventre. Ela está ninando sua menina de longe.

E ela dorme. Um dedo descobre o rosto quase tranqüilo da mãe e carinha. O dedão na têmpora é de homem.

O cigarro esquenta entrededos e ela acorda. Pega a guimba no chão e procura o cinzeiro. Deve estar na cama. Lembra da amante que dorme prenhe e olha.

Ali, por cima dela e com os olhos fixos na fumante por cima dos ombros ele acaricia seu filho.

O cigarro cai no chão e a brasa bole diagonal.

A retina aberta e a boca engolindo a fumaça.

Ele sorri. Ele é seu filho agora. Você é mãe dela e ele é seu filho. Sou eu. Eu sou tua família agora...
Tudo fica preto.

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# posted by Paulo @ 9:08 PM

18.11.03


Uma frase de nada:
Ninguém nunca disse:
Como se alguém quisesse
o que me resta vazio
como se houvessem dois pontos:


e mais nada
e mais:

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# posted by Paulo @ 9:49 PM

13.11.03


Mais uma coisinha que me veio tempos atrás. Os links são o mais longe que eu chego do hipertexto como ele é divulgado na internet.

ROXYnema

A sala, quase vazia, abraçava-me, solitário, no meio da terceira fileira. O Roxy vestiu-se com digitalidades e códigos de barras e pipocombos, mas na esquina da Bolívar e Nossa Senhora de Copacabana há um clima intenso de cinema de rua.

A fita era de um dos diretores que me arrebatam. Daqueles que produzem duas horas onde se perde a compostura e se assume como espectador. E se absorve. “Um Ato de Coragem”(John Q) de Nick Cassavetes propõe um jogo interessantíssimo já no cartaz e na genial seqüência de abertura.

Filho de John Cassavetes, um dos maiores diretores independentes, Nick herdou do pai o olhar crítico sobre a sociedade e o homem norte-americano. É um cinema de grande apelo social, mas antes de tudo, com uma câmera clínica a puncionar o comportamento humano. Em John Q vemos como chamariz o Sr. Denzel Washington e uma história de superação de obstáculos por um pai em desespero. Será que depois do doce “De bem com a vida” (Unhook the Stars) e do soco no estômago de “Loucos de Amor” (She’s so lovely) Cassavetes iria tentar um filme mais próximo do mercado?

Mas uma fita se descobre na projeção. Com um início onírico, de belíssimas imagens, Cassavetes leva uma linda mulher que dirige um lindo carro por uma linda estrada e ouvindo uma linda ária de ópera pelos sóbrios créditos iniciais do filme. Quando seu nome surge sobre a imagem é para nos dar a certeza de que não é um filme comum. Assim a projeção seguiu. Pela segunda vez trabalhando com um roteiro que não escreveu (a primeira foi em “After Cacciolo” de 2001, inédito por aqui) Cassavetes vai jogando sua narrativa nas entrelinhas das falas e situações propostas pelo roteiro. A história do homem levado ao limite pela sociedade e que tenta resolver as coisas com um último ato desesperado já foi vista inúmeras vezes. Inclusive os desdobramentos com a mídia (lembremos do recente Costa-Gavras “O Quarto Poder”). Mas o peso que Cassavetes coloca no filme faz com que a história seja maior que os artifícios usados para resolvê-la. A imagem de terra perfeita e cheia de possibilidades é atacada pela narrativa imbuída de valor social e de carinho pelas personagens que acompanha. Ao tomar de assalto a emergência do hospital onde seu filho está internado, Denzel se depara com um painel de vítimas do sistema de saúde norte-americano. Pessoas na sala de espera. Personagens síntese, contornando com bom humor o estereótipo, visão em grande parte suportada pelo simples e excelente figurino e pela escolha de pouco usar maquiagem.

Extraindo atuações viscerais e sinceras de seu elenco, Cassavetes prova que tem um talento especial para dirigir crianças, elementos fundamentais em seus filmes. A perfomance do filho de John Q, doente e fraco, esperando por seu pai enquanto assombra-se com sua morte, é desenvolta e impactante por nos levar tão perto. O garoto aceita a câmera e dialoga com ela de forma aberta, sem nunca ignorar o fato de que está sendo acompanhado.

Do lado de fora, Robert Duvall e Ray Liotta travam uma batalha pelo controle da situação e da mídia. Estabelecendo uma guerra entre a política e o homem, ou bem e mal como Cassavetes parece colocar no início e se divertir com isso (do cigarro da diretora do hospital à diferença das cores de Liotta e Duvall). Ray Liotta tem um respiro em sua carreira como o chefe de polícia que destitui um oficial preocupado com o bem estar dos reféns e do seqüestrador, para resolver, à guisa de espetáculo, a situação e parecer um herói para a mídia. Isso não o impede de se preocupar com o bem estar dos reféns, é importante colocar, apenas o faz ignorar que há uma pessoa real lá dentro com eles e não um vilão com uma risada sinistra, olhar afetado pela loucura e sede de sangue, redução comum de perfis psicológicos nos filmes de Santamadeira.

Denzel se entrega ao jogo do diretor e passa o tempo todo com um olhar de desespero e esperança e ingenuidade. Algo muito próximo de alguns protagonistas de Frank Capra. John Q, por sua vez, crê num milagre que, a cada minuto, se aproxima mais do sacrifício. Um milagre que altera não só a linearidade do filme, como o comportamento de muitas personagens. Afinal, a vontade da providência não é para ser ignorada.

Mas somente colocando suas personagens em situações limites e fazendo-as reagir intimamente a isso, Cassavetes consegue mudanças consideráveis no comportamento daqueles seres humanos e com isso, consegue fazer diferença na sociedade e no cinema. E emociona.

Saí do Roxy pela Bolívar e segui. Comigo um choro guardado pelo sacrifício e derramado pelo milagre. A beleza dos créditos é o acaso. Mas nem sempre milagres acontecem...



LINK - DE BEM COM A VIDA:

Sou um apaixonado por cinema. Um espectador de tudo e de mim mesmo. Lembro-me de ver a fita anterior desse relativamente jovem diretor norte-americano: Nick Cassavetes. Lembro-me de ter esquecido do olhar de quem faz cinema. Do olhar atento, crítico. Lembro-me dele nos filmes da “Sexta Sexy” na Band: pelado, canastrão e sempre com o ar mais cínico já visto nos Thrillers Eróticos. Um belo dia, em casa, ao exercitar um hábito quase extinto (sim, eu leio os créditos, mesmo em vídeo) num filme estranho e despretensioso no qual Cassavetes interpretava um pintor (canastrão e cínico, mas não constantemente pelado dessa vez) forçado a conviver com o fato de ter um filho com um de seus “casos”, percebi que o roteiro havia recebido a colaboração de: Nick Cassavetes! Qual não foi minha surpresa quando, em 1997, Nick Cassavetes lança “De bem com a vida” um filme escrito e dirigido pelo próprio! Recrutando Gena Rowlands e Gerard Depardieu para um dos mais sinceros e tocantes filmes daquele ano. Rowlands, sua mãe, faz um retrato do abandono pós-criação-dos-filhos, e da necessidade de tê-los perto. Dessa necessidade nasce a amizade com o filho da jovem vizinha (Marisa Tomei, perfeita) que tem problemas com o namorado violento. Aos poucos as situções propostas por Cassavetes vão alterando Rowlands ao ponto dela perceber que a sensação de abandono foi criada por ela mesma e é uma questão de escolher viver.
Fiquei interessadíssimo naquela figura estranha, que, pra mim, provinha do mundo dos pornôs leves. Descobri pelas críticas publicadas na época que o diretor era filho de Jonh Cassavetes, um dos maiores diretores do cinema estadunidense.
Passei a esperar seu próximo filme. Poucos diretores conseguem isso: iniciar a contagem regressiva para seu próximo filme. Nick fez uma pequena pérola, mas “Loucos de Amor” viria para exorcizar seus demônios e arrebatar o olhar mais distanciado.

LINK – LOUCOS DE AMOR: (Alguém? Alguém?)

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# posted by Paulo @ 6:50 PM

Um texto escrito para adolescentes e crianças que têm aulas sobre linguagem de vídeo e audio-visual no Cinemaneiro (www.cinemaneiro.com.br).

Edição e Montagem

Montagem é uma idéia. Pronto, simples assim. Já pode passar pro próximo capítulo. Que idéia? Aquela que surge primeiro em quem faz e depois em quem vê. Melhor assim?

Para entender melhor você tem que lembrar que, quando a gente vê um filme (ou vídeo, ou clipe), as imagens batem nos olhos umas EM CIMA das outras e não seguidas. Sabe quando alguém tira uma foto sua com flash, de repente, e aí fica um fantasma da última coisa que você viu antes da luz estourar? Isso é o que faz a ilusão de movimento nos filmes (ou vídeos, ou clipes). Esse movimento não existe, é como ver um monte de fotos tiradas muito rápido. A montagem tenta manter essa ilusão acesa o tempo inteiro.

Mas montagem não é movimento, porque ela não é uma ilusão. Ela existe nos olhos de quem vê. O filme não diz o que é o que, ele sugere, e o que a gente sente é o que vale. Senão a gente não contava história, mandava.

Por isso montagem é uma idéia, uma sugestão de sentimento que respeita o tempo que o olhar precisa para cada imagem. Daí vem o ritmo, como na música, os diferentes elementos do plano como as diferentes notas do acorde musical. Não ficou complicado, não. Imagina um Plano Geral, uma galera no ponto de ônibus, isso já uma informação, se a gente der mais um tempinho cada pessoa passa a ser vista em seus particulares, cada movimento delas conta como movimento no plano. Se uma Kombi entra em quadro já temos aí um elemento mais óbvio movimentando a cena. O corte fica mais fácil quando se leva em conta a relação entre os diferentes elementos do quadro e sua função para a narrativa. Assim a gente sabe como e quando cortar para um detalhe da Kombi saindo, para pessoas pagando a passagem, para alguém vendo o ônibus chegar ou se nem precisa cortar.

A gente precisa conhecer o material filmado para que nossa idéia não fique perdida quando os planos se juntarem e o sentimento não fique escondido ou incompreensível.

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# posted by Paulo @ 6:46 PM

10.11.03


de uma perfomance de Vágner

Coisa melhor não
tem, estressadão,
você chega em casa
bolado do trampo,

você como? Pancado,

liga o som bem alto
em batida charme,
acende uma ponta
classe A do bom,

você como? Neurose.

Aí sim, aí...

(desenha ondas no
ar com as mãos
e as trança na nuca)

...cê relaxa, irmão

por Henry Grazinoli

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# posted by Paulo @ 7:09 PM

AQUELA

chovia naquela tarde
as calçadas alagadas
você me equilevava pelos meios fios
muito frio me saltava pelos canteiros
fazia atalhos entre nuvens pretas e
carros apressados a dischoverem poças
lia-se dos dois descalços
aquela noite ia ser
.
.
.
.
.
.
.
.
.
quenteaberta e estrelada
não por acaso só em cima da sua casa

por Henry Grazinoli

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# posted by Paulo @ 7:05 PM

MISCELÂNEAZUL

Se água azul
De giz cêra
Sê-la doce Iara
Ou sal de sereia
Sorvê-las triz sem
Anzol na água azul

Se já céu azul
Lápis de cor
Enchê-lo nuvem de
Bichos sem cela
Cozê-los na borda
Sol do céu azul

Se chuva azul
Pingo pincel
Rosá-la n'água
E saltá-la céu
O elo dois o
Lhos dos olhos

Pingos de azul
No espelho céu

por Henry Grazinoli

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# posted by Paulo @ 7:00 PM

sete minutos

faz escuro
antes de dobrar a esquina
depois dia
ou sol de grafite no muro?


um ressucitou dos mortos
muitos
cada qual a seu modo
e ainda tantos

(decidimos não
morrer - um projétil se
aproxima veloz
de alvos nomes)

asas: assaz alçar
quiçá céu
nos pés o que há
nas mãos o táctil

(calçados desejamo-nos
descalços
um garoto se esquiva sem pernas
pela calçada)

cogitamos erguer
o desejo nos estreita
que esse ser ou não se
se ou não ser
todo tempo nos espreita?

como os outros
o último minuto é um
esboço do
zero

por Henry Grazinoli

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# posted by Paulo @ 6:53 PM

7.11.03


BENVINDO
1. aqui me século
circulo
e decolo

brinco livro
sirvo
de outros ouvidos

2. amplamigos
sempre
ceguensinam

se no
mesmo ambiente

3. aqui me casa
caminho no
colírio

muro que
ferido
confere que
se basta

bálsamolhar
família
08/03

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# posted by Paulo @ 12:05 PM

1. Aquela que se vai
Quiçá me cruza
Ou crase convida
Ser sozinha
De longe
De lá de hoje
Nunca é
Demais de longe ou
Dela
Sozinha
Como a gota
Agora a me agourar

2. Se me direciolhar
Centelhas de aconchego
Me lanço e não me nego
Ninar aquela
Que me determina

3. Memoréia o nó da lembrancelha
A fé na foto velha dela
Ou ela que não é
Sozinha
E sim minha saudade
07/03


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# posted by Paulo @ 12:03 PM

E isso aqui tem uma certa data, mas ainda é válido, mesmo que errado a certos olhos.


Já tem algum tempo que me levei ao cinema para ver Spider. Fita nova do excelente diretor de pesadelos David Cronenberg. Estando ele em meu imaginário de sombras desde que tenho lembrança, bem antes da consciência que tinha quando vi Mistérios e Paixões em vídeo, fui sem esperar saciamento algum, mas ansioso, ao menos, com a experiência de linguagem que tanto ataca o espectador incauto que arrisca assistir Cronenberg na sala escura. O que encontrei foi um truque.

Prestidigitador eficiente e tantas vezes escatológico, Cronenberg nos acostumou levar a mundos revirados por suas possibilidades infinitas. Até o íntimo da entranha. O que vemos em seus filmes não é ficção mas a realidade desnuda em que nossas mentes vagam e criam. Todos os nossos vícios e dependências se externam e tomam forma obsessivamente orgânica na obra desse mestre canadense, como na obra de H. P. Lovercraft, fato que aproxima seus filmes de uma realidade cruenta e opressora, cria única de nossas capacidades associativas e livre por primeira condição. Lembro-me do embrulho que dava ao sonho ver Videodrome de madrugada e essa era a graça. Lembro ser confundido e vedado na manipulação sutil de Jeremy Irons em Gêmeos, mórbida semelhança. Enfim, ainda agora tento me convencer do meu engano. Por isso compareci novamente ao espectadeiro. Desarmado e aberto: a vítima perfeita.

Após o excelente início plásticombinatório, já experimentado em outros filmes, mas nunca levado com tanta fluidez dos créditos aos personagens, Cronenberg logo revela seu truque: as interpretações fulminantes de Miranda Richardson. Claro que as interpretações hipnóticas e obsessivas características da verdade de um cinema de autor, aquele que entrega a parte devida do filme aos seus atores, estão em Spider como em muitos outros projetos de Cronenberg, mas com uma sobriedade estética envolvente que nos coloca em suspense a sensação de surpresa iminente. Aonde ele vai? Como se resolve? E, no fim, uma pergunta:

Sobriedade estética é amadurecimento narrativo?

Assim... No ar... Para manter o suspense da resposta...

Peço licença a todas aquelas que foram formuladas e deixo aqui, humildemente, a minha: Não. Para acabar com o uníssono do pensamento e nem fazê-lo verbal. Mais me parece uma desculpa para quando grandes diretores fazem filmes chatos. E não me repito dizendo que um filme ruim nem sempre é chato. O contrário também se aplica. É um cara que fez um filme chato. Pronto. E não foi a primeira vez. Tampouco é recorrente.

Não encontrar os truques protéticos tradicionais, ou flertes ocasionais com o ridículo, não significa que determinado autor cresceu. O que aconteceu, não sei. Talvez um certo medo de não mais trabalhar após a mal-fadada experiência com eXitenZ. Por isso símbolos e signos comuns aplicados ou pessoais e destilados: a chegada do trem, a própria teia que Spider tece física e emocionalmente, o truque de alternar personagens na atriz e no olhar de seus coadjuvantes, a invasão do sujeito em sua lembrança (ou predição, como Na Hora da Zona Morta) tornando-a quase palpável. Acredito que a beleza do cinema de Cronenberg esteja na forma como, inconscientemente, passamos a acreditar apreciar acalentar o que de outra forma seria risível.

Spider é um passo na evolução de um autor e não sua obra de mestre, coisa que fica bem clara no uso desmedido da trilha sonora e de recursos de montagem certamente eficazes e antiquados na construção de uma surpresa final. Um truque. Qualquer produtor norte-americano ou fã de Brian de Palma pode confirmar com um leve sorriso no rosto. Um truque, interessante filme afora, mas que se torna banal ao ser abraçado como alicerce narrativo, como algo além de uma lupa sobre aquilo que de mais obscuro havia nas escolhas do diretor. Coisa de mercado, pecado, deslize, concessão, nem sei o que foi feito na sala de montagem ou na sala escura por sob as pálpebras de Cronenberg. Sei o que senti e que me pareceu deslocado: o espetáculo sobre um determinado mecanismo de linguagem faz desse dito um truque repetido até deixar cansado o público.

Digo de novo que a fita não cansa. Arvora e bifurca, mas abisma quando fecha as vias de fuga da descoberta e dá de bandeja a beleza mais cinema: ser o filme de quem vê.

Mais que a história aberta de narrativa envolvente com final hermético enxertado. Creio que fiquei mais incomodado com o tato faltado ao tradutor do título nos chamados e cartazes. Desafie sua mente? Sinceramente o que é isso? Alguém pensou em fazer um trocado em cima do sucesso inesperado de Cidade dos Sonhos(que abriu grupos de discussões e digressões sobre inúmeros copos de cerveja)? O cidadão põe-se a caminho da sala de cinema e vê: Desafie sua mente, prepara-se para pistas falsas e viravoltas e mistérios e depara-se com um esquizofrênico mal-interpretar da arte de interpretar para viver. Um certo gosto de engodo permanece. Podia pensar em alguma fanfarronice dos distribuidores, mas logo se lembra da reviravolta apoteótica do final e percebe: É um truque.

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# posted by Paulo @ 12:01 PM

É pra colocar geral! Então lá vai:

Hábito de Informação

Acontece que todo dia, quando desço pela Constante até a Nossa Senhora, passo por uma dessas bancas de jornal ultramodernas. As bancas de jornal cariocas mergulharam em um processo de expansão de serviços, passando a vender vídeos, cedês, livros, devedês, sorvetes, consertos em geral, peças para computadores e serviços de acompanhantes, mas não perderam o costume de pendurar os jornais do lado de fora num mural informativo.

Importantíssima para o trabalhador carioca, a cortina de primeiras páginas é a fonte principal daqueles quinze minutinhos de atraso, geralmente atribuídos ao trânsito, naturais em qualquer emprego. Hábito antigo e de profundos alicerces na cultura popular carioca, ainda podemos observá-lo em sua forma pura e desinfluenciada no centro da cidade. Arredores da Presidente Vargas com a Rio Branco. Ali se prova a curiosidade latente em qualquer homem, claramente auxiliada pela utilização cada vez maior da figura feminina na página frontal dos periódicos, de saber do mundo.

Essa viagem de recortes em colagem fornece assunto para aquela esticadela logo após a lida (leia-se: labuta). No boteco ou no baixo camelô, a cerveja rola refrescante se juntando ao peso de tudo o que foi engolido, e diluindo o dia no escritório voltam os assuntos apreendidos em passagem. Tópicos geralmente seguidos da interjeição “hein?”, como fala quem espera um alívio, o próximo copo de cerveja ou um amigo.

O consumo de notas e comentários nas laterais proféticas das bancas de rua facilita o retorno para casa como pessoa informada e bem relacionada que há pouco tempo atrás estava empenhada em uma solução de cidadania para assuntos sem teto. Ser uma pessoa bem informada não tem preço. A exclusão natural de pessoas que buscam assuntos além das primeiras páginas é um dos problemas sociais que mais tem crescido nos últimos anos.

A cada minuto cria-se um novo mendigo informativo. Alguém que perdeu uma palavra, que não estava vendo televisão naquela hora porque lia um livro no banheiro, que não tem todos os detalhes extras só disponíveis na Internet. Uma pessoa que absurdamente desconhece os nomes dos envolvidos nos programas de maior audiência está socialmente em coma e recebe choques constantes e alternados. Todos tentam revitalizá-lo com informações e tópicos de interesse geral. Ao chegar em casa ele se depara com um quadro desolador: já não tem mais lar; todas as pessoas de sua casa querem saber daquilo ou de sua opinião sobre qualquer coisa, querem que ele se divirta com eles e os programas que todos gostam. Veja bem: TODOS GOSTAM.

Um carioca não faz essa escolha, ela simplesmente aflora na cidade numa certa hora em que o sol preguiçosamente atira seu arraste para além da espinha das montanhas, e pronto, nada passa a importar mais do que se deixar viver na veia da cidade. Observá-la e deixá-la crescer sozinha sob nossos olhos, no seu tempo. Há uma necessidade de saber o que é antes de identificar. De reconhecer sem conhecer. De saber que se chega em casa como pessoa integrada a uma sociedade, que trabalha para o bem estar da mesma.

Quando o carioca passa a dar mais importância a quem lê ou não as notícias na cascata impressa do que quem, como bom carioca, dá uma volta na realidade só por uma boa forra o espírito da cidade morre um pouquinho. Leiamos os todos os periódicos! Tomemos cerveja! Joguemos peladas imaginárias e incessantes! Observemos as mulheres, este que é o maior e mais homogêneo de todos os hábitos! Sejamos orgulhosos da cidade que nos abraça! Vivamos!

E o mundo é apenas uma desculpa para que o Rio de Janeiro exista.

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# posted by Paulo @ 11:56 AM

Saindo pela tangente, o sentimento maior do carioca é o prazer de olhar a beleza feminina. O ritmo do Rio vem dessa observação quase científica, certamente diária e religiosa. Não é que o carioca não seja um espécime caloroso e receptivo, longe de mim espalhar essa calúnia, é simplesmente um caso de excesso de sujeitos femininos na passagem. Uma, duas, três e um gole perfeito de fermentados.

Desde sempre (e dos catorze anos) a mulher fluminense exibe consciência absoluta de seus passos. Uma consciência que aumenta a cada dia e em cada esquina. Todos os espécimes masculinos, em seus afazeres, lazeres ou total imersão na vida levada nas calçadas observam perplexos. E comentam como se houvessem avistado um fusquinha meia-sete. Ficam malucos.

Houve uma época onde essa relação era mais pura, mais evidente até. Um tempo no qual os homens lutavam para reinar, para dominar, enfim, para ficar mais alguns minutos dentro da cerca dos brinquedos, e assim se descobriam joguetes entre as mãos femininas. Mas nada faziam... Pra quê, se os outros pensavam que ali era ele que mandava e se roíam numa inveja calejada de romper a corda do quinto mandamento (na verdade do décimo, mas a aliteração desse “d” me pareceu forçada)? Isso aumenta a popularidade do macho entre as fêmeas, se ele não se tornar ganancioso. O macho carioca tem a tendência de se achar dono. Hábito horrível e condenável, visto que as fêmeas fluminenses todas se conhecem. Assim como qualquer mulher, mas no Rio tudo é uma questão de geografia. E as curvas e acidentes geográficos que cercam esse habitat perfeito para os encontros são visivelmente femininas.

Voltando àquele tempo não muito remoto, mas longe de puxões de cabelos e beijos contabilizados. Aquela época em que a disputa era por conquistas e números de namoradas e beleza de passantes. Onde os machos bestas com o encantamento derramado pelas fêmeas fluminenses viviam por parecer cariocas e domadores, ou malandros. Para tanto o exercício do assombramento de homens e arredores, sob os olhares atentos das mulheres, é estritamente necessário e de poucos herdeiros.

O cortejo da fêmea, deixando-se envolver pelo macho até que ele não tenha mais para onde ir, senão para seus braços, torna o código da conquista uma dança de condução poderosa e fácil perdimento. Como o tango.

O cavaleiro conduz, mas é a dama quem se enrosca e comanda a dança. A fêmea fluminense insurge de uma vontade de cercar e dominar aquele movimento tão natural quanto leviano. O macho carioca segue tentando controlar a natureza, mas ela o envolve e revira suas entranhas até que seu sangue purifique o solo da sagrada poesia que habita a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Sejamos românticos.

E eu dizendo que saía pela tangente...

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# posted by Paulo @ 11:50 AM

até o estar de cara
com o chão final da queda livre
arrisque a espera
me cisme me instigue
a sílaba mais bela
da redoma
onda
da nossa retina
LV

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# posted by Paulo @ 2:28 AM

6.11.03

OLHAR E INCOSCIENTE COLETIVO


Eu sou só uma forma.
Um filtro de ver as coisas.
Essa forma que prossegue cega no teclado e eclode no olho todo o seu contraste.
É...
Se me acreditarem nada certamente perco essa função com que ocupo minha insônia. E afirmo:
- Preciso dela.
Deste mínimo estímulo organizatório de observâncias.

Sou culpado nos crimes de ver e descrever e rescrever e acrediver que o olhar existe em linha e retina. Marca e nervo exposto.

Nos serve selecionar o que digerir. O que ver.
Como?
Se autidórisvinhetasmúsicasetejornaisabertosnabancarederevistadizendooquecomerecomotreparpropagandatrânsitovermelhocontramãoavançopapelfilipetaputagostosaagostotelefonecelularvendoourovendotudovendovendascartazemaismuitomaisvendovendovendo

A sobrecarga é inevitável.
Não estou pregando um modo de vida alternativo. Talvez próprio. Tudo é signo e pré-classificável. Talvez não se importar com classificações.
A sobrecarga assombra.

Vejo cada vez menos. Muita luz velando as córneas. Muita passagem. Ultimamente uma menção apenas basta para lembrar de ter fome. Duas cores bastam para sede. A vontade é um estímulo externo. Uma reação à transmissão de uma ordem, como sempre foi, mas externa. Muita luz velando o mundo.

Não quero ser Monsieur Teste. Viver isolado de um tudo para me encontrar.
Não.
Só quero deixar de ser um símbolo. Uma comparação a um modelo pré-fabricado.
Influência sim! Fluente...
Cópias demais plangindo os saltos no asfalto e afirmando
(leia-se usando um rótulo colorido): NOVO!!!
Não quero ser pós-moderno. E ainda alguns vão Ahá!!! dizendo que isso é puro pós-modernismo. Pra que insistir?

Não precisamos etiquetar para reconhecer. A graça está em perder todo o tempo do mundo. Esquecer o tempo.
Amor não é isso? Perder todo o tempo do mundo para conhecer uma pessoa? Esquecer o tempo ao lado dela? Amor é um monte de coisa, mas incondicionalmente é um pouco maior do que hoje e amanhã, ou perdi a linha?

Amar o olhar.
Pelo ato de olhar. Pelo fato de se olhar.
Estender o olhar ao toque e ao corpo. Ao sentimento.
Não reduzi-lo a três palavras ligadas por hífens.
A pós-modernismos, concretismos, pré-certezas.
A certeza reduz o mundo ao preto e branco. Continuando assim...........................................branco.....

João Jardim e Walter Carvalho passaram a palavra de Saramago para cinema em “Janela da Alma” (2001) e ele diz que “vivemos numa época de cegueira coletiva; a cada dia passado o homem se aproxima mais da caverna de Platão. Estou convencido que nunca estivemos mais próximos da caverna de Platão do que hoje”. E Hermeto Paschoal entorta um pouquinho as convenções quando diz que queria ser cego para ter a visão certa das coisas da vida.

O olhar em xeque. Encurralado.
Documentários, filmes, livros e poesia explorando pontos de vista.
Ver e comunicar o que se vê.
Documentar o que se.
E se.
Evidente que no fluxo de borrões e significados adquiridos venhamos a pensar no que é real.
Presos num eterno decifrar e ser decifrado é natural que nos transformemos em símbolos de nós mesmos.
Mas não devemos nos olhar como símbolos.
Nem aos outros. E aos outros outros.
Os outros nós.
Tão diferentes e reflexos.
Encurralados.
Todos queremos ser decifrados. Reconhecidos.
Tão intensamente que ignoramos os outros.
Reduzimo-nos a um pequeno número de mensagens facilmente aceitas. Silhuetas de pessoas. Desenhos de personagens e de comportamento.
Ser comum não é ser diferente.
Nosso olhar está em xeque.
PFC

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# posted by Paulo @ 7:41 PM

PARA L.V.


Dedacorda
Dez
Eqüidistantes.
Varitonante
movesom
divindo
nota
vícicla.
Inventarez
de novo
melobulário,
lívima
intensejo
de sentimão
paletra a
nuca
lascendo
ela
pelocolítrio,
na mais
compluradora
sinceridentro.
Recegredo
éstimpronave
nova que
lanspiro,
quavém teu
corpontato.
PFC

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# posted by Paulo @ 7:40 PM

5.11.03


PERMANENTE MUDANÇA

Quero ter mais acesso ao cinema.

Não ao cinema aceso em minha cabeça, mas aquele que já se fez músculo de sombra e clarões abertos ao diálogo.

Quero ser mais possesso pelo cinema. Não pelo signo ou estigma da imagem, mas pelo ciclo natural iniciado com tradição oral. A imaginação agindo e revelando a gênese da representação na luz de brasa estalada e na chama dançada pelo olhar. A retina espelhando narrativas, a cúpula escura e perfurada por estrelas e histórias. A aldeia atenta.

Quero o cinema de sempre. O cinema que é desde o sêmen: linguagem.

***

Estamos presos demais à forma e aos seus limites. Quantos universos entre nós agora? Na nossa pele?

Que tanto desencontro desconjunta é fato. Então porque deixamos, se o próprio encontro é matéria una de todos os nossos infinitos? Quando passamos a nos organizar pelo ataque?

Ainda nos encontramos em frente à fogueira e nos deixamos. Não é um hábito: é físico, matemático: é contato, confiança de sonhar por outras mãos.

Gostamos de perder controle da lógica, fazer a mágica da livre associação.

Mas ficamos viciados junto com a linguagem. Ficamos preguiçosos e desconfiados, a linguagem nos alcança, mas nem temos certeza se é nossa.

Passamos a acreditar, pura e simplesmente, em convenções dissimuladas de ídolos e deuses, na língua divina que une as pessoas quando são as pessoas que sempre se encontram, que sempre se comunicam.

Queremos um cinema presente. Nosso e constante. Uma tela invadida pelo que projetamos. Uma tela que não nos invada com sua descarga de raios e elétrons. Uma tela que nos abrace e não nos maltrate.

O monólito hipnótico de 2001 – Uma Odisséia no Espaço nos leva à busca de uma forma perfeita e sem falhas. Vamos até os confins de nossa vizinhança para descobrir nossa consciência primeira: somos um universo, capaz de externar complexos e galáxias sem nunca esquecer o inverso. O equilíbrio.

Acontece que passamos a idolatrar inovações por inovações, a novidade pelo que a sucede. Acontece que nos deixamos levar pela insatisfação constante do binômio vender para produzir.

Só que devemos trabalhar para trabalhar.

Diversão é trabalho.

Ter um filho é trabalhoso.

Cultura é trabalho. Culturar é descascar o olho até a pluma e se ventar. Ventar é deslocar o ar pra fora e inventar. Por isso língua. De lá viemos conversando e de repente: pronto! esquecemos dos meios em nome do fim que é certo.

Em que momento da história passamos a acreditar que este fim é a vida eterna? Voltamos cegos ao fervor religioso de idos séculos. Queremos ser imortalizados e começamos a deformar a sociedade para que ela sirva melhor esta querência. Fomos à ciência, ao espaço, e nem reparamos que aqui ao lado é que nos encontramos.

No nosso retrato, independente do suporte ou do formato, somos humanos.

***

Quero um cinema assim: fogueira de encontro, noite voluntária, vaga de mar inventado, vôo constante da consciência acordada.

Não uma repetição do estado comum da nossa visão, mas um utilizamento bagunço daquilo que estamos acostumados.

Quero um cinema sincero, um ultravioleta no escuro, um cinema de quem projeta no público o seu retrato. Um cinema apaixonado.

O cinema que me sustenta é o cinema que imensa calado pela audiência.

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# posted by Paulo @ 11:32 PM
Não consigo nem atualizar isto aqui...

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# posted by Paulo @ 12:19 PM

4.11.03


como dizer o arco de um abraço
como acordar
cansado de ser o dia unidade
o dia passagem
o dia vida
que a vinda ao mundo
foi sentido
ou fez sentido
como encontrar vazio
em signos
que nuncamigos
como encontrar caminho
entre cílios e ouvidos
assim é nosso ofício
PFC

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# posted by Paulo @ 6:50 PM

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