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8.12.03



a lua
ascende
acesa
como a lanterna chinesa
da retina dela

veja:
a menina altera
o rosto
por encanto
e me sublima

enquanto
a bóia lunar
ainda estende
ao escafandrista
o respiro derradeiro
o sonar insiste
em ser espelho

em se deixar
possível

tocalcançável
no olhar caniço
isca
com que ela me calcina

a lunaforma
embola a fala besta
embora
olhorizonte baste
para que eu aborde
e me perca
12/02
PFC

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(ela que passa)

transúbito arremata
o mânsito na mata máquina
o resono deste tempo
o descaos no rádio
flexe o acaso múltiplo
deste minutraste

têmporas telônicas
palpebrincavam
atravidrando prédios
(teditórios templos
de rúbricos ressuntos)
e 12 estudestrábicos
sibilaram ela
tão ondulávida retina
que só ela
não velava
tão ela
quintravenava mundos
clericatos
fétos
e conceitos cítricos
de linguálidas arcaicas

paratom voz paraboca
paraquela que lê
a língua das pedras

escreço
12/01
PFC

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# posted by Paulo @ 3:18 PM


Produzindo... Produzindo... Talvez dois momentos distintos, mas ainda assim do mesmo amigo.

Se gostar é só comentar, algo mais a dizer: publicaê.


O homem tai-chi-chuan: Orfeu não era Onan.

Todos os cinco. Adentraram na caverna que, somente ela, conduziria ao Hades. Não havia dúvidas quanto a sua localização. Todas as variáveis, a composição de cruzamentos de levantamentos topográficos, a revisão de textos sobre o tema, os mitos e toda a mitologia ática (e anterior e pouco posterior aos resquícios, por uma questão de segurança), perpassando o novo helenismo de Vernant e Vidal-Naquet. Enfim, tudo o que fora possível. Estudaram modelos de semiótica e semiologia para adentrarem no percurso secreto da linguagem dos sinais. Reconheceram os mapas da região por via da reconstituição do período anterior à sedimentação das camadas geológicas ainda em formação. Toda a marca do tempo fora registrada, na medida do possível, em uma sucessão de modelos que cobria cada relação entre um sistema de sinais até o plano das referências, atingindo o âmago do que se sabia a respeito das linguagens naturais. Tudo o que tinham agora, era a luz de lanternas como reprodutor da necessidade de enxergar e o relicário protegido por um capacete.
A trilha era delicada e as vozes apenas destacavam a dificuldade de continuar. Não havia luz o suficiente. E, no entanto, havia luz demais ao entreolharem-se. A lanterna estava acoplada ao capacete. A ofuscação era irremediável. Alguns segundos de olhos fechados e a pupila resguardava-se o benefício das trevas em prol do contraste.
Um momento delicado foi inevitável. Após a sangria e o cutelo das pedras afiadas pelo desequilíbrio e escorregão, o desentendimento acerca do caminho por via das galerias, a certeza da profundidade e o medo por ter que trilhar o retorno e toda a perda que isto estaria a provocar, o monge budista caminhando fazendo evoluções com os braços com enorme lentidão atrapalhando a passagem na passagem inóspita e estreita, nada parecia ter fim. Um cansaço só, narrado em episódios estafantes. Até que a luz perdeu sua eficácia. Não que tenha exatamente cessado por falta de baterias. Estava tudo planejado e os recursos estavam todos presentes. Mas seu papel era iluminar adiante. Contudo, o que passou a iluminar era somente o retorno. Voltar as cabeças com o as lanternas adiante, mirando o caminho em direção a Hades significava breu, ainda maior do que desligá-las, pois haver luz projetando trevas era uma situação inusitada. O caminho confundiu o sentido, e a luz perdeu o rumo do contraste. Estavam ofuscados.
Sem orientação sobre o caminho, se era o fim, abismo ou solidão, sentaram-se. Resolveram conversar a respeito do que fazer com o Hades. Devido ao cansaço e ao tempo de sobra marcado pelas provisões de emergência, resolveram esperar o tempo os recuperar com alguma forma de sedimentação. Improvisaram algum acolchoado com as mochilas e conversaram sobre tudo. Tudo fazia o mesmo sentido que antes, até que o revertério intestino da luz deixava as questões ligeiramente conturbadas. E o tempo passou.
Já cansados e sonolentos, deixando o timbre de voz marcar a passagem de tudo, cada um rendeu-se ao silêncio. Silêncio que se rompeu. Passos delicados e marcados com uma ausência total de cadência e rapidez fizeram-se sentir. Aos poucos a silhueta marcava seu contraste com o fundo e a semelhança cedeu à mesmidade. Era o monge.
Os olhares desgastados de cada um dos exploradores cientistas deixaram-se levantar pelos braços firmes do careca que, com ares de tutor que só faziam ensinar, iniciou um aquecimento. De respiração, inspiração, sensibilidade, e movimento de saudação ao sol, de participar do equilíbrio da garça, de tornar os movimentos a marca da necessidade. Aos poucos, as travas dos corpos de cada um soltavam-se na marcação delicada que é o movimento irrepreensível, deixando todo o resto à contenção. Da garça à graça. Agora havia um mentor e autoridade. Formaram um círculo e caminharam com evoluções características da complexidade de uma civilização marcada em um código de movimentos. Eram o princípio de um nexo indescritível de possibilidades. Um novo começo de uma nova era marcada pelo seu passado glorioso. O círculo, que movia-se no sentido anti-horário, começou a assumir um sentido espiral que, muito depois, transformou-se em uma fila indiana, com o monge adiante, demonstrando ser a autoridade diante do imanente. Os passos cuidadosos eram decididos com naturalidade, quase que sem ver, devido a uma coreografia cósmica. O monge começou a desaparecer nas trevas irremediáveis e sumia lentamente, sem gerar apreensão nos discípulos. Quando somente seu calcanhar esquerdo era visível, de súbito ele se moveu e gritou longamente, sem barulho algum de fim.
Caiu no abismo.
Resolveram voltar sem, após iniciarem a retirada, voltarem-se novamente, na tentativa de resgatar seu amado. Antes de iniciarem o retorno, postaram os capacetes no peito e fizeram um minuto de silêncio. Agacharam e refizeram seu arsenal de suprimentos, vez por outra se entreolhando. Poucos segundos após a caminhada de retorno:

- Merda! Esqueci minha lanterna!

Voltaram para pegá-la. Questão de segurança.


Bernardo Curvelano Freire


Escrito sob inspiração de “Sobre a fixação das crenças” de Charles Sanders Peirce e pela ordenança do som de Dream Theater (Six degrees of inner turbulence”).


RIGHT ANOTHER TEENAGE SCENE.

By Roger Alberto dos Passos
Also known as Bernardo Curvelano “Non Paid” Freire.


(Cena: Um quarto de meninas abastadas. Ursinhos de pelúcia, uma cama ajambradinha. Cores vivas e roupas espalhadas, embora poucas peças. Apenas o suficiente para vestir duas meninas de 16 anos. As luzes estão acesas e elas escutam Los Hermanos ou D2 ou qualquer coisa cult para uma meninota do Leblon. Duas meninas, Ana e Alice, estão no chão, bem acarpetado, conversando assuntos de pijama.)

Alice (aflita)
Ana.

Ana.
Que foi?

Alice (ainda alflita)
...

Ana (um pouco, embora só um pouco, mas ainda assim, impaciente o suficiente para demonstrar interesse por algo que pode ser tórrido)
Fala, menina!

Alice (abaixa os olhos para voltá-los novamente para Ana)
Ai, amiga... Preciso te contar uma coisa.

Ana (beirando a histeria adolescente)
Fala logo! Cê tá me deixando com maluca! Que foi?

Alice
Sabe quando...(pausa novamente, como que escolhendo as palavras que vai usar) Sabe quando... assim, como.. quando você...?

Ana
Que foi, menina? (espertalhona)Você deu pro Marquinhos? Foda, você, eim? Ele fode gostoso? Me conta!

Alice (um pouco decepcionada com a amiga)
Não! Não é nada disso!(pausa novamente)

Ana
Então o que é, menina? Tá chapada? Tomô bolinha? Caraca...

Alice (nervosa)
Não, sua tosca!

Ana
Vai falar ou não?

Alice
Sabe quando... quando você...

Ana
Merda. Você tá grávida?(esboçando o mais próximo que pode sentir de preocupação)

Alice
Não. Sabe quando você ... (tomando coragem e fitando os olhos da amiga como o prenúncio do alívio). Sabe quando você mata alguém?

Ana (atordoada, tenta definir mentalmente o significado de cada uma das palavras neste diálogo, exatamente como é: impossível – assim é a memória)
O quê? O que é que... Como é?

Alice
Assim ó...



FIM

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# posted by Paulo @ 3:01 PM

1.12.03



De rimas comuns, corridas.
Da ãnsia de seguir a aurora inteiro.
Do risco que é estar acordado até os pelos.
Bernardo apreende
ao menos tenta
o fardo que nos enfrenta
quando o sol é girado.

Tétrico
em sua condição humanista
séquito citadino
mas não súdito
Bernardo surpresa
pelo que simples
não pelo que extende.

Vai além de quem entende
felizmente
vai até quem lê.

E ponto
PFC

(abraço)


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# posted by Paulo @ 9:18 PM


Bernardo é camarada certo, amigo por perto constante, mesmo que lembrante, daqueles que, distante, martela a lata com opiniões acachapantes.

TRIPALIUM

A fresca brisa frisa:
A noite finda ainda
que a pontada alarda
a malfadada hora de agora,
de um tempo marrento,
dourado, enclausurado
fechado, passado
lacrado.

Maldigo a brisa
E os sinais que frisa
Quanto à pele suada
Do breu de alma abafada
Que toca no afã de trazer o sono.

BERNARDO FREIRE


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# posted by Paulo @ 9:06 PM

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