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26.1.04


àpresentação, ainda que um tanto Dessentida, posto que é dada àquele que existe

(Não vou justificar a escolha, ele é ele que já era ele antes de se me apresentar. E ele de novo aqui na página repaginando, rapaz, tudo o que é. Curvelano - pois assim deixou claro ser seu nome - saiba que não quero roubá-lo: amigo é um nome leve e inalterável - não se preguiça em ser palavra, ele é - ele sim, o mesmo Curvelano - quase um brinquedo prismado que se imposta, ou emposta, posto faz presença outra, mas só a sua, nos olhos de quem não é. Ou tenta não. Mas ele sim.)

IVO VIU A LUVA

Uma luva lá. Em cima de uma escrivaninha, lá. De pelica, suave, dedos finos que lá acompanham os tendões vizinhos, quando avizinhados em si. Em cima da mesa. A mesa, de escrever sem luvas, polida como a luva em uso, com cadernos de capa de couro lustrado e páginas amarelas que assim parecem ociosas, como um sol. E a luva é evidência de tudo, sem dó.

Não consigo mirar em mais nada, e nem poderia. Sem mira. Só a luva e o lustre couro ilustre, os cadernos; e a mesa, seus pés e uma imitação delicada de chão que sua sombra comprova. E então ela está nua. Sei que está. Não posso vê-la, nem as ceroulas, a cinta, o espartilho. Nem ela, em pêlo, a provocar minhas ereções que há muito já despontam: uma a cada pulsação, de carne, mas só intenção. Mas está nua, como só a pele jovem, tensa. Mesmo fixo, imóvel, trancado à mira de uma escrivaninha composta, só a composição, sem sequer natureza morta ou orquestra, sem frutas ou gesta, sem frutos ou frestas, só mesmo lá e aqui de um telégrafo de iluminações. E tudo. E é só, ocioso. Dó de olhar, se me visse assim a si dado em telégrafo envenenado.

A luva é bela. Poderia ser a uva, de Ivo, que a viu iluminada em parcelas de entendimento, o que fora um ledo engano; deveria ser sempre ela. Mas é por ser singela que realizo que é bela aquela que é as mãos dos tendões vizinhos. Por ser óbvio, quase que auto-evidente, musa repetida, que sua singela tez é a pelica, luva leviana, provocadora, a contra-face da pureza de dedinhos vis. E eu aqui, parado. Só a imagem, que é toda matéria, que é todo assunto, que é todo o jornalismo. Toda a convenção. Mas ela, de pelica, tesuda. As sombras do chão presumido que é o que eu piso. E ela, nua. É branca e de mamilos pequenos e rosados. Ela é singela, de bom gosto e perversa, pois deixou sua luva diante de minha imobilidade. É sábia e verde!

Verde vai bem com uma dama pérfida de pele branca de olhar decidido e devorador. Mas são minhas pálpebras os lábios de tudo, lábios que penetro delicadamente, embora firme e furioso. Pois é meu movimento. Bom gosto, da moça. Não me movo como ela. Sou furioso. Ela, sapeca. Brinca.

Não a ouço, tal sua leveza esparsa que espalha momentos em delicados planos de esconder. As roupas, atrás da luva. Verde, como as roupas, que escondem a liga, as meias, o espartilho, os sapatos. Toda ela, escondida atrás da luva. Me distrai com livros esbeltos e lustrosos, que penetram nos lábios meus. Ociosos, sem respirar. E arde. Sem fechar os lábios arde tanta penetração. A luz fere minhas entranhas, meu alimento me tornou um tubo de imagens e a realidade infinita pulsiona meu erétil, diante da nudez. Sua obviedade me faz estender a mão. Nada que possa ser visto. É assim que sua vulva pega fogo, tamanho dourado daquele castanho ilusório, aquele verde de costuras.

Bernardo Curvelano Freire, Atirador, Chutador e Primeiro da Fila de seguidores à Camacho.


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25.1.04



(não é de mim)
para L.V. e I.S.

eu
não é de mim
como não há
de mim pra ti
um ser-se que há
no eu-te-vi
e repeti:

eu
como não há em mim
um ser-se que há em ti
me repeti pra mim
no eu-te-vi:

eu
me repeti pra mim:
se-eu-te-vi-em-ti
não há pra mim um ser
como teu instante

e de repente:
eu
me reperdi pra ti
no eu-te-vi
e te pedi pra vir
te repetir em mim:
um ser
como não há em mim

um ser
pra ter o ventre exposto
e te fazer um outro ser
e outro que te refaz
e assim te repetir
no eu-te-vi
se um dia eu vir
a te rever

o futuro é teu
não é de mim te refazer
mas te continuar
o ser:
PFC 01/04

(andaram botando pingos em "i"s, ficou legal, virou apêndice. Bem sedutor esse apêndice, creio, mais que o poema.)
quando ja nem se tem mais palavras
nem pensadas
e sim cambaleantes
entortadas
ainda assim te vejo em espelho
d´água
marca fina na retina
atrás da frente do que vejo
e sinto e quero
o mundo me foge
ao toque
ao piso
te quero abrigo

(de alguém que não assinou)

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# posted by Paulo @ 8:37 PM

24.1.04


(carne) para F.S.

silvàsílfide
ao fim de mim
tão centrousada
que moçatada
entrega ao tato
a tez que faz
da carne
minha estupidez
01/04

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# posted by Paulo @ 12:52 AM

19.1.04



Deixe-me propor impedimentos:
fotos foscas
frestas
pêndulos e êmulos
estímulos que símbolos
rasgarrados raiam.

Assim:
como sozinho rim
dobrado em si
filtrato
vi que seguia em ti
quando acordado.

De jeito que:
ruarriada areia
é minha cama
de recitecido sono
de jeito que tramapé
a língua da maré do corpo.

Então passante:
faça farsante
ou filtro
via visante
ou visto
Seja bemvindo...
01/04

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# posted by Paulo @ 7:59 PM


Quantos comentários, isso me faz impressionado. Não me renderei às pessoalidades só repito meu bordão:
"Não sei o que faço, mas o que eu fiz eu sei." (apêndice ao bordão: e devo a vocês.)


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# posted by Paulo @ 7:42 PM

4.1.04



Sempre fui medíocre no que faço. Descarado me escondo à sombra de quem sabe o que faz.
01/04
PFC

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# posted by Paulo @ 11:17 PM



dorme menina
me faz ninar o mundo
dorme menina
me faz ninar

mata minha sede
você de rede ao meu lado
balanço d'água num sábado
ano passado

ser o seu lábio semicerrado
catado quando engolido
no ar frio e molhado
ser um sorriso
domingo-dormido
perdido no seu ouvido
o ruído que o dia faz
quando infinito
01/04
PFC

durmo a noite do sonar seus olhos
durmo o sono que seu nome soa
durmo (a) um gole (d)aquilo que me assusta
durmo (com) um gesto e o concreto me disputa

com o ar seu dono
com o ar...
com o ar o seu espaço
PFC

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# posted by Paulo @ 11:15 PM

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