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29.4.04


[Por um plano ryliano .

É bom, vez por outra, ser neófito. No meu caso, nas letras, no Rio, nas letras do Rio. De uma certa forma, para mim, é tudo novo. Não conheço as querelas pelo lado de dentro ou de fora, não conheço nada de muito extenso do que se passa por aqui. Enfim, me atenho ao essencial necessário, do de pagar as poucas contas que pago. Posso g(a)ostar sem me comprometer com lado algum, tanto porque isso não existe.
É nesse clima que Regurgitofagia, espetáculo (imagino se o autor não se queixaria do trocadilho transcritivo e hispanizante “espeta-culo”, que se refere à outra extremidade) de Michel Melamed apareceu defronte mim. Tão íntimo dos locais ele me pareceu, e tão presente, que me atenho ao que me tange. Para descrever, Michel é autor de um texto-bricolage de poesias e croniquetas de falar que declama-representa-satiriza com os pulsos ligados num circuito de eletrochoque que é acionado pela ovação ou quaisquer reações do público. Nisto há um porém. Apesar da coragem e da aparente criatividade, este apetrecho só acrescenta um simbolismo que um paradoxo dá conta: “me prendo ao que me move à vontade alheia” – a própria crítica que regurgitar para re-fagiar faz, após o que Michel considera século antropofágico (perseguindo o cânone do modernismo paulistano). Mas tanto quanto uma bolsa de arte e tecnologia soa estranho pelo pleonasmo, o recurso foi, me parece, uma doce malandragem de mancebos cuja estirpe a cidade está carente.
Contudo, o texto e a declamação-performance-eletrochoque garantem um dinamismo que a insistência de Michel, à expensa de improvisos felizes, transformaram em um monólogo bastante eficaz, pois trata de temas contíguos ao dia-a-dia, uma forma de retratar o que seria uma quotidianíada, se o rapaz fosse de argumentos trágicos. Mas nenhum dos textos fala de construção, ou formação, de forma positiva. Falam do regurgito como purificação que, de certa forma, é um negativo da carne – a pureza – engrossando o coro da arte como terapêutica social. E daí que “o lapso da coca-cola, impossível” e o amor eterno (momentos do espetáculo) são trabalhados com afrontamento explícito, bem ao gosto de “versos satíricos”. Excedendo o denuncismo, Michel apresentou o não-óbvio de maneira elementar – apesar de eu, pessoalmente, preferir o inverso. Mas o negativo é só outro nome para a afirmação.

(nota: Ryliano vem de Gilbert Ryle, que questiona a validade lógica de dentro e fora, o que vale para a configuração dos lados segundo critérios da necessidade e os nomes diante as coisas e suas relações)

Dr. Amatrágico Comedido, Curvelano da Associação de Teatro de Freire, Bernardo.]


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22.4.04


(aqui vai aquilo que fez o abusado chiar. já posso ver a lágrima despencada ali, naquela marca de sol januária no olho direito, enquanto ele se põe teclando debruçadamente feito NosferatCurvelano, criando com preguiça seus comentários carregados de um tipo de raiva que o menos entendido chamaria de chilique. pois bem o personagem retorna [os dois] e fica mais interessante. narrativamente ao menos. deixo para as caixas de comentário o resto do trabalho.)

ANTICINEASTA: eu no comando e o processo.


Dizer que conto é muito. O que faço, desato um pouco. Desfaço olhos com rondós, retorno a visibilidade e repetição medindo em planos e focos estreitos, iludidos à credulidade. E tenho fé.
Amarro a todos na presumida tática do sumidouro do gênio e me faço refém sem mostrar o plano débil da contradição em que me ponho. Não é a estes que suponho indecisão impoluta da exposição. Destes eu me escondo. Sou infiel, tal comedor de putas e pai de família, um tijucano.
O engraçado é que tudo é mais sutil, segundo os leitores de profundidades de hoje marcado nos milenarismos best-seller. Aos expostos à minha virilidade audio-visual, a interpretação, o tarot da película fachada como sinal da providência calculada. Aos sobrados, doces operários de artimanhas plásticas, rédeas folgadas, sem frisar nada além da folga e do movimento cuja câmera seria somente um caminho. Mas é tudo. Gostaria de rir do que me mata. Me mata de rir – e rio. Como putas recreativamente a mim, banho minhas mulheres tijucanas de coxas grossas, prestativas que são em papéis subalternos. E estamos de acordo.
Dirijo o filme genial. Daqui seguiria uma sinopse – mas ela não é genial. O filme não está pronto, nem projeto, mas o plano é certeiro. Pura batata.
PRAGMA FORTUITA:
Quatro personagens. Não se conhecem e tem uma ligação sutil, forte e determinante – como seria Deus e os judeus, as mocinhas e a leitura matinal do horóscopo; alguma forma de destino inefável. Passarão um dia inteiro – um dia cênico – compartilhando a mesma cena, sem aperceberem-se de sua constante companhia. São o fundo e o foco o tempo todo, moving frame.
Um padre, um mendigo, uma prostituta e um advogado pai de família. O primeiro, figura de idade tradicional, sôfrego culpado, respeitabilíssimo enfim. Pároco rigoroso, afoito à crendices menininhas (daquelas de saltitar) é praticante dos mistérios de esconder as nádegas debaixo de uma cortina anti-nádegas. Fiel ao cânone e ao sermão, incontinenti miraculosus dignus dei, citador e latinista, prega caminhos, afoito à dialética mais conservadora. De fato, e feto, é reto. Orientado. De opinião, nem tanto. Mas se diz por via de geômetras.
O segundo, nauseabundo, é refugo estatístico do movimento negro afro-brasileiro. Pestilento e esquecido, mija em flores e caga em revistas de fofocas que rouba de bancas de jornal -–nas páginas nádegas de mansões batinais. Seu pênis exposto é seu argumento moral. Avesso, enlouquece à pantomina para fazer o trânsito andar e, matutino, se põe ao sol, desocupado e pedinte. Estrela da prefeitura, viaja segurado a bairros distantes, deixando à vista saxã o horizonte da bem aventurança. Manso, põe-se a lança e mira o pau no cu das menininhas.
A prostituta é tesuda, evangelizada, coxa de paulistana e púbis povoada. Concentra renda e estuda línguas como musculação. Dos seios, sem enxerto, faz do filho seu a própria luta à pátria amada, só e gentil. Oferece coberta e as pregas solidária quando adiantada. Marcas de couro e pó de brilhantina, mede na pele o ponto de partida ao bater o ponto. Impoluta, camisinha e discrição. Folgueja nas tardes sólidas no mar claro e voraz e ressente os dedos enredados na tez de caiçara. Nua, impávido colosso. Pátria, fronteira paga.
O último é cabal – bacharel indócil, doutor almiscarado, a própria encarnação curricular. Poliglota, calhorda ilhota, mancebo de vociferação. Rude no trato, bigode no prato, resto de sopa no salmão. Casado, estável laço, orgasmocrono e metrificação. É fúlgido esguio, prato estável, guizo, câncer alisado, proscrivinhação.
Já vejo o roteiro pronto. O padre, o mendigo, a prostituta e o advogado, durante o dia – um dia – estão aos pares consigo e não se vêem em uma trajetória que não os ilumina em absoluto. Não os faz entardecer nada, não declamam nenhuma ode à superação moral. Não é um jogo. Não testa o espectador. Seis situações insustentáveis que os faz migrar para outro ponto comum, chegando ao fim que tende ao infinito – paralelos – enquanto for vontade.
FÓRMULA CANÔNICA:
(A primeira cena aqui servirá como figuração a partir de um modelo. )

Mendigo mijando, de costas para a cena, em um jardim público. O padre passa e, ao mexer no bolso, caem algumas notas de real, que o ocupam em uma busca no chão sagrado. Uma das notas cai em uma poça, o que faz o pároco pensar. O advogado pede um cachorro-quente enquanto mira a barraca de churros. A prostituta, quase discreta, diverte-se com seu filho no centro da cena. A criança corre atrás de pombos esquivos que não alçam vôo definitivo.
Solução: O mendigo acaba de mijar e caminha. O advogado vai ao churro e caminha. O padre pega, sacode a nota e caminha. A prostituta toma seu filho e caminha. Acidentalmente coreografado, caminham na mesma direção.
(Vão a mais seis lugares, trocando de posição na cena, o que corresponde a atividades alegóricas. No centro está quem carrega seu filho. Sempre quem está em casa estará urinando. As duas últimas cenas são para o público e o diretor: este, no centro, mija nos atores, como num chafariz. Os atores mijam no público.)

Daí, você me diz:
- Isto não é arte!
E eu te respondo que ainda não comi meu ovo de codorna.

Precisaremos de um longa por aqui.

(Cenas entrecortadas, com close-in’s e close-out’s mostrando o ambiente diurno no despertar e as atividades do logo cedo; como achar um lugar para dormir depois de uma noite de vigília, tirar a camisinha que ficou um tanto presa na vagina e sair do motel depois de paga, ser acordado pelo despertador e desejar a morte desacompanhado, levantar-se dolorido e velho mal-olhando o crucificado. Precisaremos de um longa por aqui)


Bernardo Curvelano Freire, correspondente internacional.


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# posted by Paulo @ 7:33 PM

(abusou, rapaz... abusou... vou trocar senhas e o caralho. agora foi longe demais. escolha suas armas. a minha vai por aqui e de improviso.)

VIDATOATODA

descri
te ver
esquinecer
e lá

delar e var
porquitar e ter
até me vê-la
via já
partida

imanso
listo
só_cita
dinais

enconde
está quem

concristo
limitenaz

[o que já pisado
o que faz pisado
e não mais:]

debelejo
aléniado
que parte
bocalanteio

[beijo de quem
e quem não vê o
se é]

girovisor
calendiário
em ti

[o que te espalho]
PFC 22/04/04

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# posted by Paulo @ 7:22 PM

20.4.04


[Espero que não seja abusar. Mas não é. Um figurinha de alta roda, fugidio da marca de Baixo Gávea, está com o (espetáculo? não é crísico chamar assim?) espetáculo REGURGITOFAGIA, no espaço cultural Sérgio Porto, Humaitá, 163. O telefone de lá é 2266.0896. Está em cartaz (no palco?) nos dias 23, 24 e 30 de abril e 1 de maio. E iremos pagar 10, 00 pratas para ver o Michel Melamed ser eletrocutado! Sem metáforas ou figuras. Só escrevi porque achei que valeria à pena. : Bernardo Curvelano Freire, cou-editor e escrivão.]

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# posted by Paulo @ 12:56 AM

16.4.04


[Pela manutenção do nome na praça, eu traio!!! - Bernardo Curvelano Freire, couquer]

DOIS DEDOS MAIS
E DESEJO.
FORMIGA, TRAÇA FORMAIS DE
APROVEITAR O ENCEJO
LISTAR ANAIS SOBEJO
SOBRE TUDO ASSA DEMAIS SE
PLANEJO
DOIS DEDOS MAIS

Curvelano Bernardo Freire

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# posted by Paulo @ 1:31 AM

[Mais do mesmo cara, do fiador de contos, picador de fumo, fechador de buracos alheios - hipocraticamente falando. O goiano armador de panfletários, fichador de reaças como logo sou, como penso, promove uma aplicação do abril vermelho (despedaçado?). Meio quer UDR, um cercado em volta do arado e acauso sinhozinho contô. Maldito stenionatário! - Bernardo Curvelano Freire; freicho edition]

Lugarejo


Isso só aconteceu depois de um certo tempo.
O que aconteceu. A pergunta deveria ser, o que está acontecendo senhor. Então , isso mesmo, o que esta acontecendo. Assim fica melhor, senhor, mas de qualquer forma não sei o que anda acontecendo. Como não. Simples. Simples. É, simples, estou aqui a uns bons anos e nada parece ter mudado, senhor, a não ser o mato e as pragas que insistem em invadir tudo, fica a cada ano mais difícil deixar a gretas limpas, controlar a faina das ervas daninhas que crescem entre as pedras. Não me enrole, quer dizer que todo este barulho, toda esta movimentação, homens armados, comboios , estes estranhos, tudo isso é simples. Interessante como o senhor sabe quem são os estranhos, se não me engano o senhor mesmo só chegou aqui há pouco, isso, porém, não vem ao caso, deve ser horrível um lugar como o que o senhor descreve . Mas o lugar é este em que estamos, você não percebe.O senhor deve estar enganado, ainda ontem fui ao armazém comprar um pouco de fumo de corda, carne seca, farinha, sal e outras coisas do gênero e não notei nada de errado, se bem que estava um pouco mais quente que o normal .É claro que esta mais quente, com tantos disparos, tantas casas sendo queimadas, celeiros em chamas, ,animais e pessoas sendo incineradas, isso talvez seja o suficiente para aumentar a temperatura. O senhor está muito afoito, não é bom ficar assim, principalmente nesses tempos. Então você assume que nem tudo está normal. Com não está nada normal. Você disse que nesses tempos não e prudente ficar nervoso. Claro que não, em tempo algum devemos nos exceder . Você deve estar brincando comigo. O senhor deveria me respeitar um pouco mais, se portar assim pode ser perigoso. Você esta me ameaçando. De maneira alguma senhor , estou tentando preveni-lo, deveria me agradecer, e além do mais a vida é muito mais simples do que parece, como disse o poeta, sábio é que se contenta com o espetáculo do mundo. Pare com piadas. O senhor está me insultando, somos sérios e pouco afeitos a chacotas, penso que deve medir suas palavras com uma régua mais precisa. Você está me ameaçando de novo. Repito meu senhor, tudo está como antes, e se não nota isso é por que não é daqui, e se não é daqui talvez seja melhor procurar um lugar que lhe apeteça mais . Primeiro você me ameaça, agora me manda embora , vai fazer o quê em seguida . O senhor está complicando as coisas, tantos lugares para ir e vem parar logo aqui, nessas calmas e pacificas terras, e começa a dizer impropérios, tirar nossa calma, tenta desordenar nosso cotidiano, estraga nossos jardins, arromba casas, e ainda diz que estamos lhe ameaçando, diz que somos mentirosos . Desculpe se ofendo, e desculpe pelos danos que causei, mas foi a única forma de fugir. O senhor não tem que fugir de nada. Mas estavam me seguindo. O senhor deve estar enganado, ninguém tem motivos para segui-lo, como disse somos pacíficos como já deve ter notado. Por que sempre fala como nós. Senhor, aqui somos muito unidos, pensamos de maneira muito semelhante, somos uma comunidade e isso já é o bastante , ou pelo menos deveria ser, em uma comunidade os membros se preocupam uns com os outros e sempre que algo ameaça nossa rotina ficamos muito preocupados. Então toda estas movimentação é por minha causa. O senhor parece ser uma pessoa muito difícil, já disse que não está acontecendo nada e ainda insiste com toda esta conversa. Mas isso é um absurdo. Meu senhor, absurdo é continuar em um lugar que lhe desagrade, lembra aquele poema estranho que fala sobre um homem sentado à beira de uma estrada enquanto o condutor do carro traça a roda, ele não queria ir, mas muito menos ficar, e ainda assim se impacientava com a demora da troca da roda, não sei se me entende, mas creio que fui bastante claro. Tudo que quero é ir embora, mas não posso. O senhor é uma pessoa livre, como livres somos todos, isso o autoriza a tudo que o seu bom discernimento permita, mas torno a deixar claro que não é prudente desrespeitar aqueles que lhe dão abrigo, se lhe deixamos entrar em nossos domínios foi por que pareceu ser um bom homem, mas bons homens não querem, acima de tudo ir embora daqui, podem até ir, isso não é nenhum crime, ao contrario, é um direito, mas isso não é tudo que querem. Vamos fingir que nada aconteceu tudo bem, vou sair por aquele portão, dobrar à esquerda como se não houvesse nada lá fora e seguirei meu rumo. Meu senhor , aconteceu sim algo aqui e se quer fingir que isso tudo não existiu então me dá mais uma prova de que não nos tem em boa conta e lhe rogo que não aja desta forma. Então façamos o seguinte, você me diz como saio e me deixa seu endereço eu lhe dou o meu e de hoje em diante daremos inicio a uma longa amizade, trocaremos cartas, e continuaremos esta agradável conversa que tanto me ajudou, talvez conheça uma prima minha muito bonita que gosta de senhores de meia idade assim enigmáticos, então seremos parentes, e nos encontraremos diversas vezes, todas as férias virei aqui para colocarmos os assuntos em dia que melhor que cartas é o calor da conversa, não é mesmo, aí você me mostrará a cidade , os pontos turísticos, poderemos nadar no rio que a corta, poderemos caçar e poderei conhecer mais pessoas deste interessante lugar. O senhor realmente não respeita ninguém, não me agradou esta forma cínica como falou, receio que não tenha muito tempo. O que quer dizer com isso. O senhor deve saber, agora com licença que tenho que regar as flores.

STÊNNIO


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# posted by Paulo @ 12:44 AM

[Este figura desértica, desencontrado, e que não sei e apenas, apareceu com um porrete que da violência só a onomatopéia, bem ao estilo do BANG! de uma pistola-bandeirola. Mesmo heterônimo, amalucado, é de rir e meio. - Bernardo Curvelano Freire, co-couquer cousa]

UMA RESENHA




Arrigo Setúbal dispensa apresentações. Mesmo assim vamos apresentá-lo: É o grande revolucionário da arte do silêncio na literatura desde o Visconde Descragnole Bragança da Silva, mais conhecido como O Imberbe (apelido carinhosamente dado por sua mãe, dona Anormália Descragnole Bragança, e pelo jardineiro da família, José da Silva, tendo por inspiração a principal característica do visconde quando criança: a ausência de barba.) Desde seu primeiro livro jamais escrito (A Véspera da Nêspera ou o Espaço do Ocaso), Arrigo vem conquistando legiões de leitores ávidos por silêncio e tranquilidade. Intelectuais consagrados como o francês Jean Jacques D’aviganhon Sorbonne, o italiano Giovanno Busquetta, o japonês Yoshizida Haromaki, e os irmãos siameses Toni e Bruno (integrantes do famoso circo Garcia) não cansam de dedicar dezenas de suas linhas a não dizer nenhuma palavra acerca da obra de Arrigo.
Depois de anos de saudável espera, Brenno Cúspide, encorajado pela equipe da editora Vácuos e por seus amigos imaginários, tomou a frente da organização das Obras Inexistentes Reunidas de Arrigo Setúbal, que deverão ser lançadas ao esquecimento ainda este ano. “O trabalho hercúleo de debruçar-se sobre os abalaústres do abstrato é fascinate”, diz o pesquisador em entrevista concedida por fac-simmile. “Tão fascinante quanto o fato de Arrigo nunca ter escrito sua primeira obra, nem sua segunda, nem sua terceira, e assim até a quadragésima nona... E tudo isso anos depois de ter nascido!”. Um dos trabalhos mais interessantes de Arrigo, aliás, está diretamente ligado a seu nascimento: É o incrível “O Arbusto Geométrico”, que fala de sua concepção por dona Marildes Astuta Setúbal numa tarde de quinta-feira, atrás da moita. O coito é inenarrado em primeira pessoa, do ponto de vista do esperma. “É dos momentos mais sublimantes da história de nosso silêncio”, empolga-se Cúspide.
A obra inexistente de Setúbal ainda hoje nos revela surpresas. Seu livro infantil, especialmente omitido para crianças analfabetizadas de todas as idades, chama atenção pela sutileza das mensagens subliminares, a começar pelo título: “Não Há Lugar Melhor que o Nosso Lar, a Não Ser a Praia, uma Ilha Deserta, um Jardim Florido, uma Casa de Garotas Fáceis e os Banheiros Químicos”. Segundo Brenno, esta história deixou de influenciar dezenas de gerações: “ Creio que Arrigo tenha se inspirado no ‘Pettit Princê’, livro inventado por um mendigo analfabeto de Paris anos antes do nascimento daquele orixá... como é mesmo o nome dele... Exu Perrí!” Para o público infanto-juvenil Setúbal dedica uma de suas obras primas: “Juvenal, o Juvenil Anal”. Nada como um livro que não existe para oferecer aos jovens o prazer da leitura: “Muitos Jovens dizem pra suas mães: ‘mãe, foi o melhor livro que já li...’. estamos lutando para que esta obra-prima seja adotada nas escolas.”.
A edição de Obras Inexistentes Reunidas, além de índice onomástico, não trará a publicação de dois textos inéditos de Arrigo: o estudo sobre um grande ator mudo e sem face, o nipo-vietconque YoshY YamamotY (nome que quer dizer, em nipo-vietnamês “aquele que possui o nome entre ípsilons de caixa alta”), e os projetos do autor para seus próximos trabalhos chamado de “Antespólio, as Idéias que Nunca Tive”. Procuramos Arrigo através de telefone, email, fax e carta com aviso de recebimento.A ausência de resposta até o fechamento desta edição pode ser interpretada como mais uma tirada genial de sua vida/obra: esta resenha não existe.


Diogo Myard, especial para Binariogeral

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# posted by Paulo @ 12:37 AM

15.4.04



(segue ele, aquele maluco, fala maluco: amigo aquele que me foi guia, ainda é, mas cisma fugir quando sequer de soslaio. me amarro em ti, grande grazina, e vejo que voltaste àquele traste que escrevíamos desdantanho. e que saudade! ri-me até de meu esfíncter frouxo. depois vi que fazia sentido. em verdade.)

AQUELE MUNDO CÃO

(fábula baseada em texto de Lah Fontanah, fabuloso fabulista dos anos
de
chumbo)


o escritor sentado no sofá de seu flat. Joiçe, um doce cão de pelúcia,
atravessa a sala, rabinho abanando a etiqueta branca: não é movido a
pilhas.
- ti ti ti ti ti ti ti, Joiçe, vem cá vem...
o bichinho não toma conhecimento, some pelo corredor. coça o queixo,
passa a
mão nas pálpebras, volta o olhar pro horizonte que a parede esconde,
Joiçe?!, não, o escritor, Joiçe retorna trotando, as patinhas com rara
articulação.
- ti ti ti ti ti ti ti, Joiçe, vem cá neném, vem...
novamente o ignora e adentra a cozinha. suspira fundo, recosta a cabeça
na
espuma, o escritor. neném (carinhoso apelido dado por mamãe quando
altera
debilmente a voz) pela terceira vez aponta na sala. o escritor
cantarola, a
face displicente. Quando chega ao local adequado (o cão) meninão
(carinhoso
apelido dado por mamãe quando altera debilmente a voz) voa sobre o
pequeno
dorso peludo e o captura.
- oi neném...
leva o amigo ao sofá, abraço canhoto sufocante.
- eu sei que você quer me ouvir. Sei que você se pergunta: mas por que?
Muito bem, tô aqui pra explicar tudo, afinal, de onde vem minha
literatura?
Quais são minhas influências? Em qual ermas profundezas nascem os
marginais,
bandidos, pulhas e assassinos que deságuam em minh’óbra?
Joiçe de feições aborrecidas, ah, os olhinhos de contas plásticas...
- lho digo, amigo, lho digo. Tive uma infância sofrida e é com justeza
que
entendo o universo marginal...
Joiçe blasé, ah, o narizinho de veludo negro... o escritor levanta e
caminha
de um lado a outro.
- sucrilho, meu amigo, sucrilho quase não via... três, máximo quatro
cafés
da manhã por ano com sucrilho quéloquis... máximo quatro! Mizuno tive
sim,
mas só um. Reebok também, nike nunca...
Joiçe lambe uma ferida que não existe, ah, os pelinhos sintéticos...
- as maravilhas da culinária japonesa... essas só descobri aos quinze,
Joiçe, aos quinze anos! Sem contar o carpaccio com tomates secos, as
roupas
adidas e Deleuze, meu caro, ah, Deleuze!!! Aquele mundo cão em que eu
vivia... eu era tolhido, você entende, eu não podia!!!!
Joiçe boceja, ah, a boquinha artesanalmente tecida à mão.
- então?! Não acha suficientes motivos pra que me dedique a tal
virulenta
composição artística?!
Joiçe pisca duas vezes.
- ...
três. quatro.
- ...
cinco. seis.
- ...
sete.
- eu conto Joiçe... tudo bem... você está prestes a conhecer o maior
trauma
que me vem assombrando a vida anos afora... o acontecimento que
mergulhou
minh’alma no inferno dantesco... o contato com aquilo que me revelou a
verdade, a sinceridade e a liberdade existencialista... algo a que só
meu
biógrafo mais chegado terá acesso pois me veio influenciar arte e
realidade... Joiçe, vou confiar este segredo a você, ta neném?! (altera
debilmente a voz)
catorze. quinze. dezesseis.
- Joiçe, quando eu era apenas um jovem mancebo em calças curtas...
pequeno,
bem pequeno mesmo... eu... eu usei botas ortopédicas... Ó, castigo dos
céus!!!
o escritor cai muito alarmado no sofá. O cão aproveita pra pular fora.
- sei que você me entende, Joiçe... eu sei... você é bom...
Joiçe retoma seu percurso. Caminha de um lado a outro do flat. ah, o
rabinho
balançando a etiqueta branca: não é movido a pilhas.


Nota: a obra de Lah Fontanah não existe mais. Talhada em chumbo, foi
derretida para virar soldadinhos e goleiros de futebol de botão.
HENRY

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# posted by Paulo @ 9:49 PM


ninguém sabe
assédio ou sede
que me serve
ou absorve
e cede em quem
recebe a cidade

ninguém estado
estásfalto fátuo
fogo mais lasso
passado sem
ciclo esvai
num ruído
que ninguém sabe.
04/04
PFC

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# posted by Paulo @ 5:27 PM

10.4.04

[Anos depois, flutua a figurinha na piscina. Já mofada, com gosto de algo que poderia ter sido, e não foi. Até se manifestar como saudade ou conversa de pai para filho, já na casa velha. E então a figurinha volta à cena. Este é o tal do sumido, o Henry, que quando volta, parece que quem sumiu fomos nós. Dá som de mito, não? - Bernardo Curvelano Freire, co-editor de couquer cousa... ops, caú!]


um dia acorda dentro dum aquário. aquário? mas como pode? no mínimo uma
piscina Tony... o olho enterrado no que foi lençol e agora membrana
muito
azul, com crispas. da boca um caminho de bolhas informa: superfície.
bruços,
vira pesado de entre fluído. ê manhã molhada!... antes do despertador
desvia
olhar cotidiano pro criado mudo, aproveitado o embalo da virada, mais
lenta
que habitual, mas com orgulho de sempre: antes do despertador. ê. não
tem
criado mudo nem despertador, só uma moldura côncava um tanto negra,
translúcida. tenta um bocejo. se insiste afoga, tão muda quanto o
criado, a
boca. Aquário não é, piscina Tony só se de água salobra... ê palavra
mais
aquosa, salobra, palavra mais som de fluído no glote... levantar, tomar
um
banho, fazer a barba e tal, sal deixa a pele grudada, quase uma porra
seca.
vestir terno e gravata sem banho, hoje, não dá: grudento, cabelo
marfanhado, se der mole aqueles grãos miúdos de cristal na zorba
branca: não
dá, o sol do Centro queimando mais no rosto, o nariz feito lesma
salgada,
borbulhante. ê. o teto. vidro côncavo precipitado do avesso prum céu
azul.
cadê o lustre japonês de papel manteiga? a racha de infiltração?
desmoronou
o banheiro do vizinho de cima? ê deus, gasta-se dinheirão pro conforto
da
família... fica caro uma obra dessas... mas pra você... chuchu? a
cabeça
pesada, lenta, mole, cadê você? do outro lado só moldura côncava um
tanto
negra, translúcida, atrasar nunca, faltar tanmenos, que hão de pensar?
se
perde o trampo não alimenta mulher e mais duas, o ônibus das oito e
oito,
banho, barba, beca, atrasar nunca, putz, o nó da gravata, chuchu?,
faltar
tanmenos, moldura côncava dos dois lados, película côncava por cima,
entre
azuis. nadando chega à superfície. os socos e pontapés amortecidos. tem
que
sair. tem que trampar. a pequena no balé, a maior nos idiomas, a mulher
na
aula de sabonete as calotas pro carro, tem que respirar urgente, agora
sôfrego, mais urgente que nunca. começa falhar o cérebro sem
oxigênio.não
falha desde sempre? o despertador nem nada. ê água salobra, ê palavra
mais
aquosa, mais som de fluído no glote... ê glote afundado de fluído...
uma
última visão: o eixo da película teto vira parede, céu linha do
horizonte
(ê, vasta) mar.... ... agora sim banho de mar. antes essa água salobra?
choro? triste ou alegre?


HENRY



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# posted by Paulo @ 12:52 AM

6.4.04


A ÚLTIMA CORUJA VIRGEM

Um drible mortal em Zé Cavaco, no Américo Estivador, chapéu, e um bico tão forte que e a bola e o guarda-metas Juca Baleia e a bola se confundiram no fundo das redes. A galera, boba pela mágica, urrava. Plenos pulmões. Encatarrados.
_Hei, hei, hei. Arnaldo nosso rei!
Ninguém em toda face da terra jogava peladas como ele. Arnaldo. Senhor absoluto dos campos de várzea. Artilheiro isolado do torneio do seu Manel sujismundo - feliz proprietário do armazém da esquina, estabelecimento dos mais sortidos - oito anos consecutivos.
Não poucas lendas circulavam ao seu respeito. Driblar, todo time adversário. Começar a driblar os próprios companheiros. Decisão. Final. Jogo importante. 44:45. Pênalti. Faixinha nos olhos.
_Não faças isso homem. Loucura.
Bola, goleiro. Desencontro. Campeão.
E se os mais empolgados o comparavam à alegria do povo e ao rei do futebol era por quê, aquela contusão, feia, encomendada pelo ciúme.Lhe tirara dos gramados oficiais. Arnaldo, eles sabiam, era melhor que todos ao mesmo tempo agora, já, chapa.
_Tú já imaginou o Arnaldo num time grande?
_Pô meu, seriam os deuses centro-avantes?
Quando saía pra comprar pão, autógrafo. Leite, ídolo. Meninada alucinada.
_Seu Ranaldo, seu Ranaldo, ô sinhô pudia mi dá trógrafo?
Mulherada doida do bairro. Resistir inútil. Sua virilidade viking sinistra. Armavam os mais mirabolantes estratagemas para atrair, atenção. Desmaiavam, lencinhos cair na lama, cortar os pulsos com caco de telha. Arnaldo São Fiel. Agradeço a preferência.
Em sua casa tratado bem. Imperador dos marimbondos. Hora do jogo sem pio. Torneio que fosse. Razão de ser de sua esposa. Esterzinha Cutia. Maior orgulho do maridão. Mais ainda quando aparecia algum vizinho na hora da janta. Desesperado da vida.
"Seu Arnaldo acuda, mamãe tá desmaiando de pressão!"
"Seu Arnaldo pelo amor de Deus, meu filho foi atropelado por um cavalo"
"Seu Arnaldo, o que faço? meu cachorro bebeu clóro"
Cutia. Questão de advinhar as vontades. Café na cama, chinelinho no pé, sorvete de maria-mole com brinquedinho de plástico. Domingo. O prato preferido. Galinha caipira, quiabo amassado. Como gostava da gosminha!
Edu. Único filho. Lhe dava muita bola não. Meio caolho e dentinho da frente quebrado. Episódio até hoje mal explicado. Odiava futebol. Gostar mesmo só videogame de luta. Arnaldo e seus suspiros no cantinho do filtro.
_Ai, ai. Esse menino
Quantos anos hein? Quantos cabos de machado... Esterzinha encolheu junto com seus ossos de borracha. Edu, o filho. Desiludido. Operação para mudança de sexo. Magno, Madureira. Muito mal sucedida.Até hoje não saber o que quer da vida. Arnaldo. Sob o cínico peso dos anos. Obrigado a se despedir do esporte que tantas alegrias lhe dera. Sua festa de despedida, aliás, lembrada com espanto. Fogos. Volta em volta do campo. Gol de bicicleta do homenageado.
_Deixa passar chapa. É a despedida do cara.
Se sua juventude fôra potente e exuberante seu ocaso melancolia pura. Programas de domingo, na tv. Arnaldo o invencível. Agora. O que mais repudiava na vida. Barrigudo sedentário.
Cervejinhas geladas. Churrasquinho mixto na feira, com farofa ou sem farofa? A feijoada ardendo na língua. Punhal afundando no peito, devagarinho. Lembranças de um passado. Um monte de troféus na cristaleira. Medalhas descascadas. E o antes indestrutível coração de aço, navio encalhado. Encharcado de ferrugem. Parado para sempre. Fim do homem. A coruja agora podia finalmente dormir em paz.

Rodrigo, aquele rapaz de Realengo, Fernandes.

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# posted by Paulo @ 12:12 PM

5.4.04


[Só para registrar oficialmente duas coisinhas: estou co-aporrinhando este blog. Segundo: não, não foi uma escorregada. Segue o fluxo da narrativa. Foi um dos poucos momentos em que ela funcionou. Travado por perspectiva, na escrita como fundamento, minha forma de cubismo epistemológico. Narro em vagares - Bernardo Curvelano Freire, co-couquer coisa]

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# posted by Paulo @ 12:39 AM

3.4.04




(fantástico. me sinto envergonhado de mal estar acompanhando. mas se achegue Curvelano e me diga: porque a escorregada para a primeira pessoa? não que soe mal ou incomode, mas pareceu, da forma colocada - ainda que encontrada ao acaso ou lapidada – um tanto deslocada. sei que a repetição é chata, mas, a mim, muita coisa falta, menos a vírgula, mais adorno do que pausa. no achismo sigo sempre e levo a impressão do tema urgente e caro. conto clássico e desenganado, não vejo cinismo na narrativa, só no mundo que a ebole.)

FLOR DE COR VIOLENTA.

Havia comoção diante da delegacia. O ambiente entorpecido das paredes esmaltadas em creme e a circulação de mestiços, com olhos vermelhos, incomodaram a todos. A emergência, contudo, tornou toda a esfera estimulante, rompendo com o aconchego soturno da carceragem.
Pai, filha e mãe, cada qual em sua variação, exigindo informações de forma desconexa, perdida ou aos prantos, cada qual, respectivamente, exigindo o reconhecimento da autoridade de suas necessidades. O desespero diante do diante os fez ignorar o delegado por duas vezes, buscando saber somente uma informação crucial:
- Cadê? Onde vocês puseram minha filha? Minha irmã?
Calejado, o delegado se fez estar pesado diante dos três e informar que a moça estava bem e que fazia um exame de corpo de delito no hospital mais próximo.
Correram para o carro já sem respiração, já que o coração mudou de ramo de atividade no último engolir seco, ressecado pelas lágrimas graxas transparentes de olhos e nariz lesmeando e destruindo o belo do choro. O suor da espera e a limitação tornavam toda a situação ainda pior. Não bastasse a percepção de coisas, como o embaraço nos cabelos de minha mulher, a violência inesperada do pai e as coxas bonitas de minha filha, o corpo ainda impedia o transporte imediato. A paciência era ouro de tolo.
A cena da delegacia repetiu-se no hospital. O éter pra dormir animou os quase defuntos e retirou da suspensão o coração já trôpego. A situação beirava o insustentável – talvez pela eminência do movimento. Estavam prestes a.
Abriram a porta do corredor, que contrariava, de filhadaputamente, seu nome. Os obstáculos tubulares de tinta branca descascada e cadeiras de roda portando esqueletos entubados fazia do movimento uma escolha entre a própria morte e a morte alheia. Tudo foi negociado todavia.
Finalmente, a porta, a cama, Andréia. Encolhida, chorando assistida socialmente por um órgão. Hematomas e escoriações até onde o avental não cobria. Olhos inchados e roxos, com vasos sangüíneos, do globo ocular, todos rompidos – o que a deixava absolutamente dessemelhante de todos os demais, agora, sem o branco dos olhos. Sua expressão atônita revelava o sentimento impróprio para a inocência: vergonha.
O pai desabou. Seu sonho para uma juventude perfeita, sua imagem de belas filhas intocadas, desfez-se diante da presença e ausência sistemáticas de um falo predatório. De joelhos, no chão, praguejou tudo o que podia, comunicou tudo o que a balbucia permitia. Foi a vez, então, da mãe segurar a barra. Puxou o pai para fora do quarto para não assustar as filhas ainda mais. A assistente os acompanhou.
Viviane caminhou para a cama onde estava a irmã. Mais à vontade, Andréia puxou-a pelo braço e chorou com soluços desembaraçados tentando, sempre que possível, relatar o evento. Os três rapazes, o mau-cheiro, o baile, a força, a violência e o gozo desajeitado que se firmou nos cabelos, pernas e tantas pernas mais.
-E o pior, Vivi...- o choro interrompeu a frase. O choro, rasgado, sofreu a mudança de pequenas e curtas pausas. Ao levantar o rosto, já de sorriso apontado para sua cúmplice predileta:
- ... é que é a sua vez...

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# posted by Paulo @ 3:59 PM

2.4.04


(valeu Curvelano. ainda tento manter uma regularidade, mas só os textos são, no máximo, regulares. aqui vai o que andei fazendo por estes dias. semana porca e feliz. pra me retratar, e por estar longe de meu acervo dos senhores meto uma carta eletrônica. coisabsurda e toda minha preocupação essa semana. perdoem.)

CERTA ENGENHARIA SE PERDE

para: vendas@bhphotovideo.com
cc: para mim mesmo
Assunto: Pedido Número 111692840: Piece Missing (Peça Faltante)


Caros Senhores,

Recebi meu pedido, bem felizmente, uma semana antes do comunicado e já me
era urgente esse material. Sou muito grato pelos seu serviços, pela
profissionalidade amistosa e até pelo carinho com quem está interessado.

Entretanto, no devido pedido, (o primeiro que fiz, mas certamente não o
derradeiro) tive uma dúvida, ainda que não saiba se fui eu quem fez o
problema:

Pedi um determinado modelo, um g4 dual 1.25 e acrescentei dois monitores
apple display de 17.

Mais tarde, quando tudo estava acertado, tive medo de esquecer alguma peça
fundamental, sem a qual nada funcionaria. Passei a lista numa revista
rápida e desavisada; perguntei até se viria teclado, mouse e etcétera
tal... Nisso incluí minha dúvida quanto aos Monitores: queria ter certeza
que eu faria os dois funcionar. As duas telas. E ficou garantido que tudo
estaria certo.

Pois bem, com meu pedido aqui e já montado, não consigo descobrir como
pode ser ligado o segundo monitor. Não há entrada ou peça alguma que me
garanta isso. Manuais cautelosamente lidos...

Nada. Ainda perdido resolvi ligar para um conhecido que me soubesse
explicar o ocorrido. Um rapaz que trabalha com isso. Ele me disse que eu
preciso de um tipo de adaptador (não sei se um de ADC para DVI ou o quê).
Chegou a mencionar que são necessárias duas placas de vídeo, mas não me
preocupei por confiar no que havia pedido. Acredito que o computador funcione
com dois monitores, mas não sei se falta uma peça para isso. Sei que não
consigo ligar o cabo na segunda entrada porque ela é pequena demais. Como pode ser resolvido?

Sei que posso contar com sua ajuda.

Vocês podem contar com meu compromisso.

RIO DE JANEIRO, SEX 02/04/04
21:49h
PAULO F. CAMACHO

Esconder imagens com problema

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# posted by Paulo @ 10:23 PM

1.4.04


(Meio que invadindo o espaço do Camacho, sem plágio estilístico, como já foi feito, pomos à vista alheia o gancho depilador do medicino goiano, ponta firme e, dizem os eleitos, pica grossa do Stênnio. Como nem para o segundo turno eu fui, deixo aos camaradas decidirem acerca do membro do rapaz. - Bernardo Freire, o Curvelano)


Boxeur

Mais de um caiu sob o jugo deste braço.
Bigode, o lutador, eis que vos apresento.
Morsa poderia ser apelido seu, na mocidade já se apresentava com a cabeleira bem talhada no lábio superior .
O maior meio pesado que passou por aquele ninho de campeões chamado Nobre Arte, ringue e academia de boxe.
Mão de martelo ou de pilão, torquês , alicate, braço de urso, cara de cão.
Onde o direto de direita pegasse, cabelos nunca mais.
Quase um bailarino, a saltitar e fintar sobre o ringue com swing e leveza, enganava qualquer um.
Destreza transbordando pelas luvas, deixava adversários loucos, pra ninguém sobrava chances, ligeireza descomedida.
Saía sempre para o outro lado, esquivava para um e o jogo de pernas desmontava o oponente, às vezes variava , mas ginga sempre em excesso, quase dança.
Como reza a lenda, dançou de bobo, tome pedrada no cocuruto, era esse o grande prêmio dos adversários .
Só sobrava uma louca vontade de cair para o sujeito que levava no queixo. Era vontade de ficar em pé para um lado e o dito em desabalada queda, desmontando pro outro.
A parede da academia dava as contas dos nocautes, cada rico uma queda, perdeu a conta dos riscos que fez.
Muito queixo foi dormir mais cedo por conta sua, quebrou pra lá de um bom monte, destroncou outro tanto, tudo sem contabilidade precisa, mas muito bem atestado.
Pedeceva nariz em quase todos os treinos, encabulante coisa aquela, não tinha pena de tirar olfato de ninguém .
O Doutor era quem gostava da festa das quebragens, isso o pessoal dizia, um tanto por maldade, outro tanto por certeza.

Dizia que seu negócio era xadrez, jogar com o corpo, sua peleja no tablado se restringia, pouco gostava de quizilas na rua, nunca foi de brigar sem alegação previa que justificasse o ato.
Problema é que raridades aconteciam, e como gente desprudente não falta , um mais saliente sempre o forçava a derrubar quem besteirava com sua pessoa ali pelos bares da vida .
Cedia aos prazeres da carne, se não a carne periga a apodrecer, isso lhe falavam e nos tais dos bares sempre abundava a matéria que dá vida para as carnes mais fracas.
Mulher, sinuca e cachaça, com uma licença para uma dose extra de jurubeba, o carteado é perigoso
O abraço dele, de leão, também já domou muitas damas, de vida fácil ou não, do dia ou da noite, aí o ringue era uma cama bem macia, ou era qualquer lugar que fosse, ali mesmo o ideal recinto.
Muitas casadas já se renderam, nem mulher direita resistia, papeador o Bigode, prosa perigosa a dele, cheia de deslizes e fuleiragens .
O homem sofria com estas raparigadas, sempre a mesma coisa, depois de uma noitada com uma dita qualquer, a tal não largava de seu rastro de jeito nenhum, mesma história.
Instruído nas artes do amor, o Bigode.
Entendia as mulheres ,o sujeito era dos bons.
Muita mulher já caiu no braço por causa dele, era um puxar de cabelos e distribuir tapas a revelia.
Traçava o encomendado sem erros, o safado sabia de cor a lição .
No pano verde a habilidade das mãos se mantinha ,não raro ganhava uma queda sem deixar o pato jogar uma vez sequer.
Bebe dava para mais do que menos, nada que o atrapalhasse, se superava , é certo, mas nem tanto, mas defeitos só existem pra que alguém os tenha.
Vanglórias copiosas moram lá no passado dele, do Bigode mas onde fica isso mesmo.
Ninguém , hoje, sabe disso, há quem diga que este é o problema.
O Bigode lá no Hospital ninguém sabe quem foi, quase até que perdeu o bigode, aquele homem.
Não sabe há quanto tempo esta internado, não sabe ao certo como foi parar ali, lembra de micharia de coisas, dos tempos da academia, dos bares da vida, de , de, de que mais.
Sabe que todo dia é uma coisa diferente, só que parecido com o que já se passou, com outras cores, pro seu bem, é o que todo mundo diz.
Ele pensa que não.
Primeiro enfiaram uma sonda pela sua uretra, pra controlar a diurese.
Dedo no seu reto já colocaram varias vezes, para avaliar a próstata ou a existência de um tumor por ali.
Investigar o trato digestivo é mandatório, coisa simples, um tubo pra ver o estomago, endoscopia, outro para ver os intestinos, colonoscopia, e pronto, já foi.
Parece que foi operado, deve ser esse o motivo da ferida que divide, na vertical, sua barriga ao meio.
Colocaram um cateter pelo seu nariz, um pro oxigênio outro mais profundo, chegando ao estomago, pra dar comida.
Tirar sangue é difícil, mas tem que ser, espeta daqui, espeta dali, uma mais, agora vai, amanha tem mais, mas é só amanha , pode se acalmar.
Ainda bem que ninguém vê esta lágrima que escorre de seus olhos sem brilho.
Ele mesmo já não vê muita coisa. Mas sabe.

STÊNNIO.


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# posted by Paulo @ 10:14 PM

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