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29.9.05


[assim, no corte. alguma coisa pra se trabalhar.]

Itiberê

Despertou Itiberê, com a fria sensação de uma lâmina rasgando sua carne, partindo seus músculos, castigando cartilagens, ossos e ligamentos. Despertou Itiberê de seu sono claustrofóbico, de sonhos cubiculares e respirações sôfregas.
- O torniquete vai conter o sangramento.
Da falta de céu irrompiam afirmativas, derretiam-se sons abafados.
- O concreto... Esse bloco é muito denso... Não conseguirei remove-lo... O braço?! O braço é supérfluo...
À voz intercalava-se a lâmina.
O grito Itiberê não gritava. O grito era Itiberê, o corpo era o concreto, a língua eriçada era a lâmina, a retina arrombada era Brás. Itiberê, o grito. O arremedo do grito que se tenta erguer entre soluços de cimento e simples fatias de céu. Ao lado do grito o vômito seco da véspera, a massa dourada, última reação ao cadáver da criança que bailava perfumes hediondos.
- A menina deve estar por aí, Brás... Não pisa aí...
- Cortaremos o braço e uma perna... Deve ser o bastante para puxar o garoto por aqui...
Os pais de Itiberê tinham nas faces a rigidez do cimento. O cheiro pregava uma negação do ser. O homem, vulnerável a qualquer confusão de concretos...
- Há um osso aqui que não se corta por nada... Dá-me ali aquela pá, mulher.
- Brás...
- A pá!
Sob os escombros Itiberê já visava seu rosto refletido n’água. Já via belas damas e já via carne sob suas vestes de veludo e já via anáguas e já via ventres e já via seios e já via seu rosto redondo estampado n’água... Nas mãos o último cheiro de sêmen e o banheiro vindo abaixo e o vaso branco a se desfazer como talco, como cal, e a água opaca, e o peso e o peso e a fatia de céu. O cadáver pueril, o vômito, o sono comprimido, e agora a lâmina. E os dentes trincados ao estampido da pá rachando o fêmur.
- Brás!!!
E a pá. E a pá, e a pá.
- Brás!!!
O fim dos tempos, enfim. Brás e Aurora viviam, contudo. E Itiberê, estavam certos. Luma já era da terra, como dissera Brás, sua estrutura corpórea não resistiria à fúria das fundações de ferro e concreto. Brás e Aurora viviam como às avessas Adão e Eva: dois derradeiros no mundo, buscando dos domínios da morte o descendente.
- Quebrei! Quebrei! Vamos puxá-lo.
Demente, Aurora cambaleava, embebida no sangue vertente das pedras do forro, da cerâmica do piso, no sangue difuso nas pedras, na casa, em tudo.
- Quebrei! Vem mulher!
A têmpora cravada no solo, Itiberê, à beira do resgate, sentiu novamente o braço implacável de seu dissoluto soterramento. O braço, no entanto, o puxava, buscando um parto do útero da terra. A têmpora ralou-se.
- Força mulher!
A fatia de céu, o negro, o sufoco, o céu. O céu.
- Itiberê!
As vistas empoeiradas tocaram na face de Brás. Titubearam, beijaram a face de Aurora. Itiberê, mutilado como o mundo, sorriu o sorriso das pedras. O corpo esmagado da irmã, o vômito, o último cheiro de sêmen vibraram nos seus sentidos confusos. A lágrima da mãe rosnou, feroz. O peito do pai se abriu numa explosão de gestos, frases, gostos e desgostos. O piso branco que agora o sustentava mergulhou, redentor, num banho de mármore quente e acolhedor. Duas moças passaram e sob suas vestes o demônio empunhando um crucifixo. Itiberê sempre temera os demônios. E por demais os que se ocultavam sob as saias e sob as carnes e atrás dos olhos. Itiberê cerrou os olhos até a medida dos concretos que outrora fatiavam seu céu.
- Itiberê... Por amor de Deus, filho...
- Filhote...
Itiberê cerrou os olhos, afinal, até sentir nas costas mais profundas o calor da cerâmica. Itiberê cerrou os olhos, afinal, até a medida do abstrato mais profundo.
Henry Grazinoli 8/99


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